ENTREVISTA

Cobertura online

Vendo e sendo visto

Foto: Walter Costa

Foto: Walter Costa

Com um auditório lotado, foi realizado nesta sexta (18) o segundo debate do Fórum. Com o tema Quem vê ou quem é visto – A representação do outro, a conversa foi conduzida por Andrea Jösch (Chile), Shahidul Alam (Bangladesh) e Mario Montalbetti (Peru).  Na platéia, alguns dos principais fotógrafos, curadores, pensadores e artistas da atualidade, como Marcos López, Jorge Saénz, Nelson Garrido, Jorge Villacorta, Luis Weinstein, Diógenes Moura, entre muitos outros. O público, os debatedores e o tema já indicavam que as duas horas de explanação não seriam suficientes. E, prevendo isso, Andrea Jösch inicia sua fala desculpando-se por ter de informar que cada um dos presentes à mesa, inclusive ela, deverá falar no máximo 20 minutos para que ao final do debate seja possível abrir para perguntas. Ciente desta limitação, a fotógrafa chilena faz uma análise sobre a relação entre fotógrafo e fotografado, trazendo à tona a função da imagem como construtora de ideias e pensamentos. “O entorno visual nos modifica a cada dia, o assédio visual, a saturação de imagens. A máquina fotográfica e seu enquadramento nos trouxe uma nova maneira de enxergar o mundo, de nos colocarmos”. Existindo sempre alguma intenção de quem fotografa em construir, representar ou contar algo ao mesmo tempo que quem recebe, ler esta imagem e o local onde ela circula são também determinantes e condicionantes para sua interpretação. “Não existe só uma maneira de enxergar, não podendo a imagem ser lida como um cadastro da sociedade, visto que temos uma conduta aprendida e enxergamos o que queremos, fotografamos o outro como queremos”.

Foto: Walter Costa

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Shahidul Alam vem em seguida dando o tom da sua fala ao iniciá-la com o antigo provérbio “Até que os leões encontrem seus historiadores, os caçadores serão sempre vangloriados”.  Por meio de uma série de exemplos, Shahidul mostra como os países ditos subdesenvolvidos ou em desenvolvimento são comumente retratados por fotógrafos de fora destes locais, através do viés exótico, selvagem ou da denúncia da pobreza e da violência. “Nossa pobreza ou mazelas são uma realidade, mas não são as únicas identidades que temos…  Alguns anos atrás, houve uma exposição em Londres sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, elaborado por várias ONGs importantes. Todo o trabalho foi produzido por brancos, fotógrafos europeus. Então eu questionei um dos organizadores o porquê de tal escolha, e ele respondeu que o curador tinha mencionado que ‘eles’ – ou seja, nós – ‘Não tínhamos o olho’.” Diante de tal realidade, Shahidul promoveu uma série de iniciativas que visavam instrumentalizar pessoas que não “tivessem olho” a fotografar e registrar suas próprias histórias independentes da agenda ou interesses do “establishment”.

Foto: Walter Costa

Foto: Walter Costa

Valendo-se de uma piada em que um personagem cria uma situação para dizer que deixará de fazer algo, sem deixar de fazê-lo, somente para dar a impressão de que está sendo caridoso com um outro, Mario Montalbetti inicia sua fala questionando o suposto altruísmo dos que permitem que o outro/ o diferente/ o antes somente retratado, fotografe. E dizendo-se retirar de cena, para assim o outro poder participar, o suposto altruísta continua a fotografar. Para Mario, gostamos do outro/ diferente mas só naquilo que ele se assemelha a nós, aquilo que o outro se diferencia não nos serve. E lançando mais uma provocação, o espaço é aberto para as perguntas que não dão conta de terminar o assunto. E assim, o Fórum segue para fora do auditório.

Foto: Walter Costa

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