De um para o outro

Cia de Foto – "Monasterio + Brodsky + Tiago Santana"

A imagem que desencadeia outras imagens suscita aspectos deste campo mágico e dialógico que, porque não dizermos, promove o saber sensível da fotografia.

O transcurso em contemplar, apreender e vislumbrar sentidos alinha-se ao constructo dialógico de nossa memória e repertório visual. Olhar e lembrar, olhar e sugerir, olhar e encantar-se, olhar e imaginar, enfim, olhar e pensar são relações profundas que vigoram como impulso ao processo de compreensão de uma fotografia.

A partir do outro, da imagem fotográfica que nos “alimenta”, reorganizamos, reconsideramos e criamos narrativas correlatas de sentido para as imagens alheias. “Simbolicamente e imaginariamente, são os diversos discursos por trás e sobre uma revelação que elaboram uma imagem. Ela é assim produto de uma polifonia de olhares que refletem e remetem a códigos que estão além dela própria”, reflete o sociólogo Mauro Guilherme Koury.

O exercício sintomático das associações visuais perfaz um corpus metafísico no qual a percepção fotográfica passa a ser um ato espontaneamente colaborativo, de discurso simbólico compartilhado.

O livro Correspondências com Pablo Ortiz Monasterio, do fotógrafo argentino Marcelo Brodsky, essencialmente um fotolivro que trava diálogos entre imagens-missivas, instaurou para o coletivo Cia de Foto a dinâmica de não fechar-se em suas páginas.

A força da contigüidade das fotografias fizeram a Cia de Foto lembrar, associar, desalinhavar a imaginação… Qualquer um de nós pode acrescentar lembranças a esse percurso de troca imagética.  Apropriar-se subjetivamente de fotografias é um ato intrínseco ao olhar.  Basta recordar do que  se admira, do que enleva nossos pensamentos ou das imagens que fazem parte de nós.

Assim continuamos esse diálogo inventivo e pulsante.

Cia de Foto – "Monasterio + Brodsky + Breno Rotatori"

Cia de Foto – "Monasterio + Brodsky + João Castilho"

Cia de Foto – "Monasterio + Brodsky + Man Ray"

Cia de Foto – "Monasterio + Brodsky + Pedro David"

Cia de Foto – "Monasterio + Brodsky + João Castilho"

Retratos Pintados

Foto: Arquivo Titus Riedl

A cidade de Crato, no interior do interior do Ceará sediou, há três anos, um encontro que rompeu as fronteiras da chapada Araripe e ganhou o mundo. Nesta época, o fotógrafo inglês Martin Parr veio ao Brasil para participar de um Fórum de fotografia e conheceu o sociólogo alemão Titus Riedl, que vive há 15 na região do Cariri e possui uma vasta coleção de fotografias pintadas reunidas para uma tese de mestrado defendida há 12 anos.

Parr, mais que depressa, reconheceu a grandiosidade daquele arquivo e decidiu levar mundo afora a importância de recuperar a ameaçada arte dos chamados “bonequeiros” do Nordeste brasileiro. Deste feliz encontro nasceu uma exposição em cartaz (até 18 de setembro) na Yossi Milo Gallery de Nova York e o livro Retratos Pintados (Nazraeli Press, capa dura, 68 páginas e 61 fotos), lançado simultaneamente à mostra, que expõem 150 retratos originais.

Os bonequeiros são incansáveis representantes de um ofício em extinção e atuam, se me permitem a comparação grosseira, como o nosso “fazedor de milagres contemporâneo”, o Photoshop. Além de recuperar memórias perdidas e fotografias mal tratadas pelo tempo, estes artistas recriam o improvável dentro de uma mesma imagem. Se o cliente quer uma foto ao lado de “padinho Cícero”, o cliente tem! Se fizermos uma análise mais profunda do trabalho destes fotorretratistas, é possível os reconhecer como agentes do sonho brasileiro. Eles concretizam em imagens o deslumbre da ascensão social nordestina por meio de ternos, roupas caras e joias que os retratados talvez nunca tivessem acesso.

Segundo Riedl, estes artistas seguem as orientações dos clientes que querem ser algo diferente do que são, tornando plausível a possibilidade se reinventar por meio da fotopintura, ou trazer de volta a memória de entes queridos. “Na zona rural, as imagens fotográficas ainda são escassas e, como último recurso para manter viva a lembrança do morto, os familiares recorrem às vezes a um retrato apagado ou desgastado do falecido, que tem de ser concluído pelo bonequeiro”, conta.

Ainda de acordo com o sociólogo, existem certas “regras” estéticas comuns na realização da fotopintura, principalmente quando se trata de um cliente idoso: tirar todas as rugas do rosto; nunca pintar de branco os cabelos; evitar sombras, “ajeitar” roupas que pareçam exageradamente sensuais. As crianças devem se parecer com o Menino Jesus dos folhetos distribuídos nas missas; mulheres devem usar blusas monocromáticas ou estampas de flores e homens devem aparecer de terno e gravata.

O ofício dos bonequeiros e dos fotógrafos populares do Brasil ganhou versão em película feita pelas mãos do diretor de cinema Joe Pimentel, em 2007. Com co-direção de Tiago Santana e pesquisa do próprio Titus Riedl, “Câmera Viajante” retrata o universo e o ofício destes profissionais que atuam nas festas, feiras e romarias do interior nordestino. O documentário é simples, divertido e com declarações de amor à fotografia que há tempos não via igual!

Pois bem, quem está em Nova York vai poder ver de perto o incrível trabalho destes bonequeiros e, quem está longe, fica torcendo para que a exposição e o livro da dupla Parr e Titus venham logo para o Brasil!

Foto: Fotopintura de Martin Parr no livro

Foto: Arquivo Titus Riedl

Um mergulho no abismo

Benditos, Tiago Santana, anos 90

Vez ou outra, as pesquisas acadêmicas permitem que suas metodologias se contaminem com algum elemento poético. São as mais prazerosas de ler. Anuschka Reichmann faz neste trabalho um exercício dessa ordem: desloca conceitos e constrói metáforas que permitem pensar tanto a fotografia quanto a cultura latino-americana. Ela parte da noção de abismo, originalmente ligada à Heráldica (estudo de brasões), e já aplicada por alguns autores à análise de obras do cinema, da pintura e da literatura. A “perspectiva em abismo” se refere à repetição ou desdobramento de elementos dentro da imagem, criando um percurso complexo de leitura. Com esse conceito, a pesquisa tenta entender o comportamento próprio que o olhar tem diante de certas fotografias que trazem imagens dentro de imagens, colocando em diálogo dimensões espaciais e temporais distintas.

Anuschka Reichmann desenvolve uma metodologia própria para analisar a presença desse fenômeno no trabalho de quatro fotógrafos: Sergio Larrain (Chile), Alicia d’Amico (Argentina), Tiago Santana (Brasil) e Graciela Iturbide (México). A escolha dos autores não se dá por acaso: ela enxerga uma analogia entre essas imagens e um componente de nossa cultura, uma “América Latina no abismo” que também se desdobra em dimensões complexas.

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Um mergulho no abismo: estratégias comunicacionais da imagem fotográfica

Autor: Anuschka Reichmann Lemos

Orientadora: Kati Eliana Caetano

Mestrado em Comunicação e Linguagens – Universidade Tuiuti do Paraná – Paraná, Brasil – 2006

Fragmento:

“A perspectiva em abismo não é uma estrutura presente somente em imagens latino-americanas(…). Também, entre as imagens latino-americanas, não é uma estrutura que seja utilizada de forma geral. Porém, certamente é uma estrutura visual que pode simbolizar questões culturais. O fato de ter uma imagem dentro da outra, e de as relações entre esses quadros serem mais importantes que os enquadramentos isoladamente, já demonstra um processo pouco objetivo e ambíguo do abismo. Questões entre colonizado e colonizador, vida e morte, natureza e cultura, presença e ausência, objetividade e subjetividade, imagem e realidade, identidade e alteridade, etc. permeiam essas relações”.

Monografia em PDF: http://tede.utp.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=132

Au Bal-Musette, Brassaï, 1932

Serafina, Graciela Iturbide, 1985

Valparaíso, Sergio Larrain, 1963

Alicia d´Amico, 1968