Michael Löwy: entre territórios e linguagens
Apresentamos recentemente o livro Revoluções, organizado por Michael Löwy, que discute a história das convulsões políticas do século XX. A obra traz algumas centenas de fotografias e subverte a tradição metodológica que tende a tornar a imagem submissa ao texto.
Brasileiro radicado na França, e com obras publicadas em vários idiomas, Michael Lowy fala da concepção do livro Revoluções, de sua inspiração em Walter Benjamin, e do que significa estar fora de casa.
Até este último livro, você não tinha uma relação significativa com a fotografia. Como surgiu a ideia de pensar as revoluções a partir de imagens?
A ideia foi de um amigo, o editor Eric Hazan, que tinha uma coleçâo de livros de fotografias, com volumes dedicados a vários grandes fotógrafos franceses, desde o século 19. Foi ele que me propôs, enquanto especialista da historia das revoluçôes, de organizar este livro. A idéia era romper com o esquema habitual, isto é, ilustrar a historia com fotos dos eventos, e partir, ao contrario, das fotos, e tentar entender os processos revolucionarios através do que elas mostravam. Fiquei entusiasmado com a ideia e o desafio, e comecei a escrever a introdução. Os autores que convidamos, em sua maioria amigos meus, aceitraram com prazer e trabalharam seguindo a proposta que fizemos, cada um, naturalmente, à sua maneira.
Considerando sua forte ligação com o pensamento de Benjamin, você identifica nessa experiência uma afinidade com a recomendação que esse filósofo faz ao historiador de romper com a ideia de um tempo linear e homogêneo?
Nos interessou a idéia da revoluçâo como interrupçâo “messiânica” do tempo linear e homogêneo, a revoluçâo como tempo de ruptura da continuidade do “progresso na ordem”. Também recolhemos de Benjamin a idéia de “imagem dialética”, uma imagem que concentra num momento unico o passado, o presente e o futuro. Enfim, ha uma grande afinidade do livro com a Tese de Benjamin sobre a singular importância da mémoria das geraçôes derrotadas do passado, da imagem de nossos antepassados martirizados, da herança dos vencidos da historia. Pode-se considerar o livro “Revoluçôes”, como uma reflexâo sobre esta Tese benjaminiana.
Todo historiador é consciente das implicações de estar distante no tempo das coisas de que fala. Levando essa mesma questão o espaço, você sente que sua mudança para a França lhe impôs outro modo de olhar para o Brasil e para a America Latina?
Sem duvidas, o fato de viver há 40 anos na França produz um olhar distanciado sobre a America Latina, embora minhas frequentes viagens, sobretudo ao Brasil, permitam uma relaçâo mais direta. Entretanto, eu diria que o inverso é tanto ou mais verdadeiro : meu olhar sobre a Europa e a França é bastante marcado por minha origem e cultura brasileira, latino-americana. Um exemplo evidente disto é meu livro sobre Walter Benjamin - alias ilustrado por varias imagens e fotografias – que acaba propondo uma espécie de “leitura latino-americana” do autor das Teses “Sobre o conceito de historia”. Nâo sei se o mesmo se aplica ao livro “Revoluçôes”…
Obras de Michael Lowy em espanhol (fonte: Wikipedia):
- El pensamiento del Che Guevara México. México, Siglo XXI, 1971
- La teoría de la Revolución en el joven Marx. México, Siglo XXI, 1971
- Dialéctica y Revolución. México. Siglo XXI, 1975
- Para una sociología de los intelectuales revolucionarios. La evolución politica de Lukacs 1909-1929. México. Siglo XXI, 1978
- Los marxistas y la cuestión nacional (con G. Haupt y C.Weill). Barcelona, Fontamara, 1978
- El marxismo olvidado (R.Luxemburg, G.Lukacs). Barcelona, Fontamara, 1978
- El marxismo en América Latina del 1909 a nuestros días (Antologia). México, Ediciones Era, 1980 ; Santiago del Chile, Ediciones LOM, 2007
- ¿Qué es la sociología del conocimiento? México, Fontamara, 1991
- Redención y Utopía. El judaísmo libertario en Europa Central. Un estudio de afinidad electiva. Buenos Aires, El Cielo por Asalto, 1997
- ¿Patrias o Planeta? Nacionalismos e internacionalismos de Marx a nuestros dias. Rosario, Ediciones Homo Sapiens, 1998
- Guerra de Dioses. Religión y Política en América Latina. México, Siglo XXI, 1999
- Walter Benjamin. Aviso de incêndio. México, Fondo de Cultura Económica, 2004.
- Franz Kafka, soñador rebelde. Madrid, Taurus, 2007.
- Estrella de la mañana. Surrealismo y marxismo. Buenos Aires. El cielo por asalto, 2007 (en colaboración con Silvia Guiard)
- Sociologias y religion – aproximaciones disidentes. Buenos Aires, Manantial, 2009 (en colaboración con Erwan Dianteill)
- De Hegel a Nietzsche. La quiebra revolucionaria del pensamiento en el siglo XIX. México, Katz, 2007.
Revoluções
A coletânea de artigos Revoluções (São Paulo: Boitempo, 2009), organizada por Michael Löwy, parte de um vasto conjunto de fotografias para pensar a história de algumas das mais importantes as convulsões políticas do Século XX. Essa obra nos interessa por vários motivos: pelas centenas de imagens que reúne, também pelo método que permite à imagem ter seu próprio espaço numa pesquisa histórica, e pelas revoluções que aborda, dentre elas, a Guerra Civil Espanhola, a Revolução Cubana, a Revolução Zapatista no México. E Löwy encerra a edição brasileira do livro com uma questão: “Revoluções brasileiras?”, recusando as falsas revoluções, como o golpe militar, e preferindo as verdadeiras intenções revolucionárias, como Canudos.
Michael Löwy é um dos mais importantes intelectuais marxistas brasileiros da atualidade. Formado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, vive em Paris desde 1969, onde hoje é diretor do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). Até este livro, sua relação com a fotografia não era tão evidente.
Um ou outro pesquisador da fotografia interessado em Benjamin pode ter se deparado com um de seus livros “Walter Benjamin: aviso de incêndio” (São Paulo: Boitempo, 2005), que discute com muita clareza um dos textos mais enigmáticos do pensador alemão: suas teses “Sobre o conceito de história”.
Em Revoluções, vê-se claramente o propósito de fazer da imagem mais que uma ilustração: a narrativa verbal e a narrativa fotográfica tem, cada uma delas, seu devido espaço e seu devido papel.
“É claro que as fotografias não podem não podem substituir a historiografia, mas elas captam o que nenhum texto escrito pode transmitir: certos rostos, certos gestos, certas situações, certos movimentos. A fotografia permite que se veja, de modo concreto, o que constitui o espírito único e singular de cada revolução. Alguns críticos negam o valor cognitivo das fotografias de acontecimentos (p.13).
Löwy sabe que o material que reúne, antes de servir à pesquisa, participa da própria história. E, ainda numa perspectiva benjaminiana, convida a observar essas lutas interrompidas ou vencidas como o retrato de uma utopia que pode, também, agir sobre o nosso futuro.
“À medida que se avança no tempo, a fotografia torna-se não apenas um espelho – necessariamente deformador – dos eventos revolucionários, mas também um ator histórico, um instrumento de combate. Cada campo, nos enfrentamentos ou nas guerras civis, utiliza a fotografia como meio de propaganda, símbolo de união, sinal de reconhecimento. E, é claro, as fotografias das revoluções anteriores inspiram cada nova revolução” (p. 17-8).













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