De um para o outro
A imagem que desencadeia outras imagens suscita aspectos deste campo mágico e dialógico que, porque não dizermos, promove o saber sensível da fotografia.
O transcurso em contemplar, apreender e vislumbrar sentidos alinha-se ao constructo dialógico de nossa memória e repertório visual. Olhar e lembrar, olhar e sugerir, olhar e encantar-se, olhar e imaginar, enfim, olhar e pensar são relações profundas que vigoram como impulso ao processo de compreensão de uma fotografia.
A partir do outro, da imagem fotográfica que nos “alimenta”, reorganizamos, reconsideramos e criamos narrativas correlatas de sentido para as imagens alheias. “Simbolicamente e imaginariamente, são os diversos discursos por trás e sobre uma revelação que elaboram uma imagem. Ela é assim produto de uma polifonia de olhares que refletem e remetem a códigos que estão além dela própria”, reflete o sociólogo Mauro Guilherme Koury.
O exercício sintomático das associações visuais perfaz um corpus metafísico no qual a percepção fotográfica passa a ser um ato espontaneamente colaborativo, de discurso simbólico compartilhado.
O livro Correspondências com Pablo Ortiz Monasterio, do fotógrafo argentino Marcelo Brodsky, essencialmente um fotolivro que trava diálogos entre imagens-missivas, instaurou para o coletivo Cia de Foto a dinâmica de não fechar-se em suas páginas.
A força da contigüidade das fotografias fizeram a Cia de Foto lembrar, associar, desalinhavar a imaginação… Qualquer um de nós pode acrescentar lembranças a esse percurso de troca imagética. Apropriar-se subjetivamente de fotografias é um ato intrínseco ao olhar. Basta recordar do que se admira, do que enleva nossos pensamentos ou das imagens que fazem parte de nós.
Assim continuamos esse diálogo inventivo e pulsante.
Argentino, tornou-se fotógrafo no exílio em Barcelona nos anos 1980, durante a ditadura militar em seu país. Foi aluno de Manel Esclusa, famoso fotógrafo de retratos catalão, no Centro Internacional de Fotografia. Paralelamente, graduou-se em economia pela Universidade de Barcelona. Sua obra traz uma constante abordagem política, expressa em exposições como Los Condenados de la Tierra, Buena Memória e Nexo. Na obra Imágenes contra la Ignorancia, fez uma intervenção pública contra o nazismo, em Hannover, na Alemanha. Foi curador da famosa mostra Estéticas de la Memoria (Centro Cultural Recoleta, Buenos Aires) e um dos organizadores do 1o Fórum Latino-Americano de Fotografia de São Paulo, em 2007, e do encontro Bienal de São Paulo-Valência, na Espanha.
Criado em 2003, o coletivo propõe novas leituras fotográficas por diferentes meios. Entre eles, destacam-se a curadoria da Semana Internacional de Fotografia FNAC (2008) e o conselho curatorial do Paraty em Foco (2009) e deste 2º Fórum Latino-Americano de Fotografia de São Paulo. Também participam de exposições nas quais apresentam ensaios conceituais. Mantém suas obras representadas pela Galeria Vermelho, de São Paulo. Fazem parte do conselho editorial da revista Sueño de la Razón e atuam também no mercado editorial e de publicidade.
Pedro David
O sertão enquanto temática artística-poética é contumaz em várias linguagens. Lugar de inspiração para vários e grandes fotógrafos, a magia do lugar também faz com que se desvele não um, mas vários contextos imaginados. Nesse ponto, o olhar pode nos indicar uma simbiose entre a realidade e a ficção.
Abandonar o instante e se apropriar da paisagem na tentativa de abstrair os clichês – que tal tema muitas vezes provoca –, trata-se do esforço em rever o conceito e convertê-lo em proposta de suspender o lugar. De modo que se possa conduzir os “sertões” em sua aura de símbolos e narrativas mais largas e criativas. O filósofo francês François Soulages reflete que “o artista não está aqui para dar respostas”. E nos conduz a uma das essências da imagem, quando afirma que interpretar é uma maneira de trabalhar a potencialidade de ficção.
De tal maneira, pensemos ainda em ensaios fotográficos que geram – pelo senso da pesquisa – não só as consequências da imagem em si, mas contudo suas instâncias de apreensão da subjetividade do lugar. O percurso de busca e imbricação do retórica sobre o sertão e sua dimensão da percepção metafórica entre natureza e homem pode e deve ser retrabalhado com ênfase na pesquisa, no aprofundamento da imagem não pela lente mas, muito mais, pela formulação da aproximação sensória com esse território.
No trabalho Homem Pedra, do fotógrafo mineiro Pedro David, a investigação caminha pela cartografia de um lugar repleto de cenas preexistentes em nosso imaginário seja afetivo, literário, social, cultural, estético… As imagens de Pedro David perambulam de mãos dadas com referência a obra Grandes Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. De certo, inevitável, não remetermos a ela.
Além dos retratos, a paisagem de morfologia inquietante, rechaça a precisão do estigma da pobreza, fome e miséria tão frequente à imagem do sertão. Suplanta-se tais condições para construir certa poética voltada para a relação estóica entre o homem e este lugar – duro de se manter a sobrevivência.
A luz, o rastro de poeira, a arquitetura, a vegetação e as pessoas passam a encantar pelas fotografias de Pedro David. No entanto, esse encantamento não se formula apenas pela beleza ou raridade da cena, mas também pelo mistério vindos do silêncio e do paradoxo do que podemos vir a imaginar. O devir neste ensaio pode afugentar olhares incautos, a percepção precisa se nortear através de passos falsos… Pelos quais, convenhamos, as imagens inferem mais.
Homem Pedra: espécie de ato litúrgico do estar num espaço muito mais pela imaginação do que pela certeza das pedras.



























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