Um mergulho no abismo

Benditos, Tiago Santana, anos 90

Vez ou outra, as pesquisas acadêmicas permitem que suas metodologias se contaminem com algum elemento poético. São as mais prazerosas de ler. Anuschka Reichmann faz neste trabalho um exercício dessa ordem: desloca conceitos e constrói metáforas que permitem pensar tanto a fotografia quanto a cultura latino-americana. Ela parte da noção de abismo, originalmente ligada à Heráldica (estudo de brasões), e já aplicada por alguns autores à análise de obras do cinema, da pintura e da literatura. A “perspectiva em abismo” se refere à repetição ou desdobramento de elementos dentro da imagem, criando um percurso complexo de leitura. Com esse conceito, a pesquisa tenta entender o comportamento próprio que o olhar tem diante de certas fotografias que trazem imagens dentro de imagens, colocando em diálogo dimensões espaciais e temporais distintas.

Anuschka Reichmann desenvolve uma metodologia própria para analisar a presença desse fenômeno no trabalho de quatro fotógrafos: Sergio Larrain (Chile), Alicia d’Amico (Argentina), Tiago Santana (Brasil) e Graciela Iturbide (México). A escolha dos autores não se dá por acaso: ela enxerga uma analogia entre essas imagens e um componente de nossa cultura, uma “América Latina no abismo” que também se desdobra em dimensões complexas.

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Um mergulho no abismo: estratégias comunicacionais da imagem fotográfica

Autor: Anuschka Reichmann Lemos

Orientadora: Kati Eliana Caetano

Mestrado em Comunicação e Linguagens – Universidade Tuiuti do Paraná – Paraná, Brasil – 2006

Fragmento:

“A perspectiva em abismo não é uma estrutura presente somente em imagens latino-americanas(…). Também, entre as imagens latino-americanas, não é uma estrutura que seja utilizada de forma geral. Porém, certamente é uma estrutura visual que pode simbolizar questões culturais. O fato de ter uma imagem dentro da outra, e de as relações entre esses quadros serem mais importantes que os enquadramentos isoladamente, já demonstra um processo pouco objetivo e ambíguo do abismo. Questões entre colonizado e colonizador, vida e morte, natureza e cultura, presença e ausência, objetividade e subjetividade, imagem e realidade, identidade e alteridade, etc. permeiam essas relações”.

Monografia em PDF: http://tede.utp.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=132

Au Bal-Musette, Brassaï, 1932

Serafina, Graciela Iturbide, 1985

Valparaíso, Sergio Larrain, 1963

Alicia d´Amico, 1968

A crueza dos vestígios

Foto: Graciela Iturbide

Duas mulheres mexicanas se encontraram. Graciela e Frida.

Não, a história não é simples e sequer limitada pelo momento do encontro. O meio pelo qual se narra é a imagem. Colada na superfície da fotografia, conduz estados imaginativos através da vida de uma mulher resgatada por outra. A fotógrafa Graciela Iturbide não se deparou com a pessoa, a figura feminina, mas com os objetos que pertenciam ao cotidiano privado de Frida Kahlo (1907-1954) – ícone mexicano das artes plásticas e ativista política. Portanto, vemos fotografias que exercitam a dúvida, a ausência da pessoa pela existência das coisas, do lugar físico que acomoda um horizonte poético sem maneirismos, mas com precisão. Fazendo apenas hipérboles para a fruição com a alma.

Mas vamos à história.

Quando Frida Kahlo morreu, Diego Rivera, seu marido e também pintor, cerrou o que considerava de mais íntimo na casa onde ela havia nascido e morrido: o banheiro. Tomou assim a dimensão de um não lugar, o relicário estanque, guardado por ordem expressa. O luto fez com que se preservasse e respeitasse a dor que sufocava aquele espaço. Até que um dia, a fotógrafa entrou serenamente. Ela e a câmera fotográfica. Somente as duas. Prontas para romperem a morte. O olhar através da câmera iria escoar os fantasmas, produzir imagens e dar vida a objetos exilados da nossa visão. Diria mesmo que, havia muito, fenecidos na instância da memória. Ao negar o trânsito do olhar naquele cômodo, Diego Rivera cuidou da amada aos olhos dos outros – mesmo que esses fossem admiradores de quem ali viveu. O marido sacralizou o que de mais íntimo existia naquela casa, seguindo sua emoção.

A casa, após a partida de Frida, tornou-se museu. Toda a casa descamou-se, ao longo desses anos, pelos olhares dos visitantes. Menos o banheiro… Em 2006, veio o convite e nasceram as fotografias. Podemos vê-las no livro “El Baño de Frida Kahlo” (Editorial RM, México, 2009) da fotógrafa mexicana Graciela Iturbide feitas na Casa Azul (em Coyoacán, México) – lugar onde nasceu e morreu Frida Kahlo.

Baixe aqui o PDF com o artigo completo: A crueza dos vestígios

*Artigo publicado originalmente no Pernambuco – Suplemento Cultural.

Foto: Graciela Iturbide

Foto: Graciela Iturbide