Leitura de Portfólio – Dia 1
O primeiro dia da leitura de portfólio foi super movimentado, gente entrando e saindo da biblioteca do Itaú Cultural.
Como nas danças de cadeira que brincávamos quando crianças, os participantes se revesavam entre as mesas dos leitores carregando diferentes formatos de portfólio. Tem pra todos os gostos e estilos: caixas grandes, folhas soltas recortadas, livros de autor, tela de laptop, fotos em cor, PB.
A sala cheira café e se ouve o burburinho das conversas que não param um segundo sequer, sinal de que as trocas estão sendo boas!
De acordo com Carlos Carvalho, coordenador do FestFotoPoa, os artistas estão com uma cabeça mais aberta em relação à difusão da fotografia. “Sinto que as pessoas estão enxergando outras formas de dar vazão aos seus trabalhos, não se prendem mais ao tradicional, como uma exposição. Hoje vi coisas interessantes sendo apresentadas em multimídias e livros de autor. Acabei de ver um maravilhoso agora!”.
Carioca, começou sua trajetória fotográfica em jornais como O Globo, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo. Também fotografou para revistas como Veja e Isto É, além das internacionais Newsweek e Time Magazine. Desde 1986 atua como documentarista, tendo especial atenção a temas como extrativismo e o movimento do trabalhador rural. Atualmente, é editor da revista eletrônica Mesa de Luz (www.mesadeluz.org) e diretor do Estúdio Brasil Imagem, em Porto Alegre, cidade onde mora. Vencedor dos prêmios brasileiros Leica-Agfa (2005) e Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos , é fundador e coordenador do Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre (Festfotopoa).
Fotografias dentro da mochila ou tecnologias iluminadas
Este post foi feito por várias mãos.
Mesmo antes de começar o Fórum Virtual, conheci a pesquisadora Claudia Linhares Sanz no FestFotoPoa e convidei ela para colaborar com o blog. Claudia é uma pesquisadora com bagagem e conhecimento de causa. E gente boa!
Já com a Residência de Carlos Carvalho rolando, um dos posts dele seria sobre o trabalho de Claudia que foi selecionado para o encontro de críticos do PhotoEspaña. Porém, ganhamos um presente e Claudia nos enviou um texto diferente.
Carlos fez um abre e, para ilustrar o post, pensei em algumas fotos da Cia de Foto que estão no Flickr dos meninos. Outro presente para o Fórum Virtual. A Cia enviou quatro trabalhos inéditos.
Os dois vídeos e o dois trípticos foram produzidos especialmente para ilustrar o texto de Claudia. E a outra foto pela primeira vez é mostrada.
Agradeço Carlos Carvalho, Cia de Foto e Claudia Linhares pela colaboração com o Fórum Virtual.
Alexandre Belém.
***
Fiquei devendo aqui, o texto da Claudia Linhares, que teve seu trabalho de crítica e reflexão selecionado para o PhotoEspaña 2009. Entre idas e vindas, a Claudia enviou o texto a seguir. Evito comentários, porque são desnecessários. Ressalvo apenas que é imperdível, embora longo. Mas o que é longo?…
PDF com o artigo completo: Fotografias dentro da mochila ou tecnologias iluminadas
Por Carlos Carvalho.
“Foi aquela menina do colégio público que me fez ficar o dia inteiro com esse incômodo. Por que carregar uma máquina fotográfica na mochila, todos os dias, junto com seu ipod? Todos os dias? A menina apareceu em reportagem de um telejornal sobre “acompanhantes” eletrônicos dos adolescentes no cotidiano. Mas por que fotografar, todos os dias, eventos que não são nem especiais nem inéditos? Por que, afinal, carregar e apontar a câmera para o cotidiano, na mesmice desse passar dos dias? Será que ela não poderia anotar na agenda, ocasionalmente, seus encontros com os amigos, como eu e minha irmã fizemos?”
“Pronto, cansei. Talvez eu não faça nada mesmo com as minhas fotos. Nem impressão, nem tratamento, nem filminho, nem postagem. Mas pelo menos as fotos eu continuo fazendo – vou continuar carregando na mochila a possibilidade permanente da foto (igualzinho à adolescente do colégio).”
“Para ser sincera, continuo com uma pontadinha de dúvida: por que levar a máquina para a cama, para o banheiro e para a cozinha? Por que a câmera se tornou o personagem central de nossos circuitos de prazer? Fico pensando quantas máquinas dentro da mochila.”
Para o texto de Claudinha 1 from ciadefoto on Vimeo.
“Indegavelmente, o desafio de pensar o elo entre imagem, pensamento e tecnologia ganha, de fato, uma dimensão significativa na atualidade diante do caráter inovador de certos aparelhos tecnológicos. No entanto, o novo na mania fotográfica contemporânea não parece tratar apenas dos temas que escolhemos hoje para clicar.”
Para o texto de Claudinha 2 from ciadefoto on Vimeo.
Criado em 2003, o coletivo propõe novas leituras fotográficas por diferentes meios. Entre eles, destacam-se a curadoria da Semana Internacional de Fotografia FNAC (2008) e o conselho curatorial do Paraty em Foco (2009) e deste 2º Fórum Latino-Americano de Fotografia de São Paulo. Também participam de exposições nas quais apresentam ensaios conceituais. Mantém suas obras representadas pela Galeria Vermelho, de São Paulo. Fazem parte do conselho editorial da revista Sueño de la Razón e atuam também no mercado editorial e de publicidade.
Carioca, começou sua trajetória fotográfica em jornais como O Globo, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo. Também fotografou para revistas como Veja e Isto É, além das internacionais Newsweek e Time Magazine. Desde 1986 atua como documentarista, tendo especial atenção a temas como extrativismo e o movimento do trabalhador rural. Atualmente, é editor da revista eletrônica Mesa de Luz (www.mesadeluz.org) e diretor do Estúdio Brasil Imagem, em Porto Alegre, cidade onde mora. Vencedor dos prêmios brasileiros Leica-Agfa (2005) e Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos , é fundador e coordenador do Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre (Festfotopoa).
O pólo nordestino
Uma das programações que mais dão trabalho e prazer no FestFoto é o Fotograma Livre, criado inicialmente com o objetivo de abrir uma janela para novos talentos da fotografia. O tempo se encarregou de escancarar essa janela e mostrar que “novos talentos” era mais um clichê, um escaninho que não faz sentido.
Na edição 2010 alguns trabalhos nos encheram de emoção e vimos com imensa alegria o “pólo nordestino” descer com toda força em Porto Alegre. Depois da hegemonia natural de produção do eixo Rio/São Paulo, as Semanas da Fotografia da Funarte mostraram a força de outras geografias, com destaque para a cidade de Belém, através do trabalho desenvolvido pela FotoAtiva através do Miguel Chikaoka, Mariano Klautau e outros e por fotógrafos que já inscreveram seus nomes na história da fotografia brasileira contemporânea, como Elza Lima, Luis Braga, Paula Sampaio e mais recentemente Guy Veloso.
Agora, com os festivais que se espalham pelo país, o nordeste começa a mostrar a força de sua produção, seja na organização de festivais e semanas da fotografia, seja através de nomes que vão aos poucos abrindo uma nova página nessa história.
AutoDesconstrução from priscilla buhr on Vimeo.
No Fotograma Livre 2010, os dois “vencedores” na categoria individual são do nordeste, mais precisamente do Recife, Priscilla Buhr e Alexandre Severo cujos trabalhos reproduzo nest post. Sobre Priscilla Buhr, deixo as palavras para sua conterrânea Georgia Quintas: “A fotografia de Priscilla Buhr é de um paradoxo insolente. Jovem fotógrafa, seu trabalho burla sua condição de iniciante. Trata-se de um olhar maduro em busca de relatar o sensível de temas da vida cotidiana. A composição de Priscila é precisa, dominada. O belo em suas imagens é espontâneo, leve e refinado. Suas imagens parecem surgir sem muita força, apesar de contundentes, nos guiam numa espécie de serenidade. Talvez seja a consciência em buscar coerência que torna seus ensaios avolumados, resistentes até mesmo a temas comuns. Volta o paradoxo: a fragilidade de um começo de carreira e a forte identidade de uma poética. “AutoDesconstrução” é um trabalho impecável. O resto está por vir”.
Sertanejos from Alexandre Severo on Vimeo.
O trabalho de Alexandre Severo é daqueles que puxa a cortina pra mostrar uma ponta do que está acontecendo. E depois escancara “tudo que é possível existir dentro de um 3×4 e você nunca teve coragem de perguntar”. A postura 3×4 dos retratados persiste nos retratos mais abertos e puxa a linha do humor, por vezes corrosivo pelo ambiente sertanejo, por vezes jocoso pelo mesmo motivo. Linda poesia metafórica.
quando afundam os líquidos caninos se pronunciam das mariposas o esqueleto. from cactosesuculentas on Vimeo.
Nos trabalhos coletivos, o vencedor foi “quando afundam os líquidos caninos se pronunciam das mariposas o esqueleto”, de Carine Wallauer e Gabriel Honzik, de Porto Alegre. Experimentalismo puro, com fotografia, vídeo e algo mais que só vamos perceber daqui a pouco.
Por Carlos Carvalho.
Pernambucana, é doutora em antropologia pela Universidad de Salamanca, na Espanha. Obteve seu mestrado pela Universidade Federal de Pernambuco e tem pós-graduação em história da arte pela Fundação Armando Álvares Penteado, em São Paulo. É coautora do blog Olhavê (www.olhave.com.br). Curadora do Clube de Colecionadores de Fotografia do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães – MAMAM, em Recife; e autora do livro Man Ray e a Imagem da Mulher (2008), Georgia também faz parte do Conselho Curatorial deste 2º Fórum Latino-Americano de Fotografia de São Paulo.
Carioca, começou sua trajetória fotográfica em jornais como O Globo, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo. Também fotografou para revistas como Veja e Isto É, além das internacionais Newsweek e Time Magazine. Desde 1986 atua como documentarista, tendo especial atenção a temas como extrativismo e o movimento do trabalhador rural. Atualmente, é editor da revista eletrônica Mesa de Luz (www.mesadeluz.org) e diretor do Estúdio Brasil Imagem, em Porto Alegre, cidade onde mora. Vencedor dos prêmios brasileiros Leica-Agfa (2005) e Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos , é fundador e coordenador do Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre (Festfotopoa).
Um fotógrafo na mira do tempo
No post anterior, introduzi aquilo que foi a matriz dos debates do FestFotoPoa 2010, o tempo na fotografia.
Além de exibir trabalhos de fotógrafos que trabalham em novas fronteiras e limites, o festival buscou na reflexão – e no pensamento de autores novos e consagrados – uma outra abordagem. O tempo também foi tema proposto pelo PhotoEspaña – no ano de 2009 – para um Encontro de críticos e pensadores que aconteceu no México. A fotógrafa e pesquisadora Claudia Linhares Sanz e a jornalista e pesquisadora Sinara Sandri (também coordenadora adjunta do FestFotoPoa) tiveram trabalhos selecionados para o Encontro e participaram ativamente da edição 2010 do FestFotoPoa.
Sinara, no pensamento e formatação do festival. Claudia Linhares participando da mesa “O tempo e o espaço no território da fotografia” e, ao lado de Rubens Fernandes Júnior e Pio Figueiroa, da Cia de Foto, proporcionou uma dos melhores debates do festival.
Reproduzo neste post, o trabalho de Sinara Sandri selecionado para o Encontros de críticos do PHE, sobre o fotógrafo italiano Virgílio Calegari, radicado no Rio Grande do Sul e que deixou uma obra documental sobre a cidade de Porto Alegre na virada do Século XIX para o Século XX. Em sua pesquisa, Sinara percebeu que além da idéia consolidada por pesquisadores de que Callegari havia fotografado a transformação urbana que tornou Porto Alegre uma cidade “moderna”, no sentido mais positivista de época, o fotógrafo italiano também se preocupou “autoralmente” em mostrar que a cidade, que surgia para a modernidade (que é diferente de surgir com a modernidade), deixava marcas de uma cidade que “tinha sido” e introduzia elementos que viriam ganhar forma apenas num futuro de “modernidade inexorável”.
O trabalho de Sinara Sandri mostra que Callegari foi um autor preocupado com a memória social da cidade. Mas paro por aqui. Deixo vocês com o original, que é infinitamente melhor que o meu texto. E que afinal foi a tese de mestrado de Sinara Sandri, que além de ter recebido 10 com louvor, teve como orientadora, Sandra Pesavento, historiadora cuja atuação foi quase uma militância no campo da História e do uso da imagem na pesquisa e sua importância no imaginário de um cidade.
PDF do artigo de Sinara, selecionado para o PhotoEspaña: UM FOTÓGRAFO NA MIRA DO TEMPO
Link para a monografia completa: http://hdl.handle.net/10183/11384
Por Carlos Carvalho.
Por Sinara Sandri.
Virgílio Calegari (1868-1937) ficou conhecido como o retratista da elite urbana que se instalava em Porto Alegre, no início do século XX. Entretanto, entre o material sob guarda da Fototeca Sioma Breitman e disponível para pesquisa, as imagens de negros, pobres e trabalhadores chamam atenção por demonstrarem interesse e intimidade com temas exteriores aos salões letrados.
Nas imagens identificadas como “Mãe Rita” e “Mulher de Turbante Branco e Preto”, não há ostentação ou a imitação de padrões característicos de modelos brancos, nem a repetição do estereótipo africano, esperável nas fotografias do padrão “typo negro” ou mesmo das imagens dedicadas a retratar os costumes desta população.
Nas duas fotografias, a identidade negra das modelos é demonstrada de forma clara. Entretanto, o que chama atenção na imagem da mulher é a relação de cumplicidade, necessária para que a modelo se mostrasse de forma tão intensa frente às lentes do retratista. Em um cenário de recursos mínimos, onde não precisou disfarçar nem mascarar os traços do seu cotidiano, a mulher parece muito à vontade em um sorriso bastante familiar. Ao lançar um olhar muito íntimo, a mulher deixa entrever a pessoa que está atrás das lentes. Pode ser exagero enxergar, através deste retrato, o fotógrafo no papel de amigo, patrão ou velho conhecido. Entretanto, não seria demasiada ousadia ver aí a maestria do autor ao materializar, em imagem, a riqueza dos sentimentos humanos.
No retrato identificado como “Mãe Rita”, a mulher que seria a responsável pela introdução dos cultos africanos, em Porto Alegre, é apresentada com seus colares rituais em um olhar sério e enviesado. Não fosse por uma leve insinuação de sorriso, seria possível dizer que mostra uma quase desconfiança diante do fotógrafo. Apesar da relevância da sua tarefa, dificilmente gozaria de reconhecimento público uma vez que não fazia parte dos grupos econômica e socialmente favorecidos. Entretanto, sua importância e a função que ocupava não passaram despercebidas pelo fotógrafo.
É importante assinalar um provável interesse do autor por um personagem que representa circuitos e relações sociais que extrapolam o meio em que vivia a chamada elite dirigente da época. Longe da imagem do exótico, o retrato de Mãe Rita poderia ser tomado como exemplo da preocupação do autor com personagens, hábitos e modos de viver existentes na cidade.
Outra imagem que pode servir como exemplo deste olhar do autor é a fotografia conhecida como “Acendedores de lampião”, sem datação estimada pela instituição de guarda. São os trabalhadores responsáveis pelo acionamento dos lampiões de iluminação pública, atividade que já na virada do século XX estaria com os dias contados. Dessa forma, é possível concluir que, na iminência de uma mudança substancial na feição urbana e, em determinada medida, em uma atividade econômica da capital, o fotógrafo optou por retratar o elemento humano. Ao priorizar o trabalhador e não o sistema de iluminação, imortalizou uma profissão em vias de extinção e ofereceu a possibilidade de salvar do esquecimento algumas vítimas inevitáveis do progresso e da modernidade.
Calegari observou e fotografou sistematicamente a cidade, as obras de melhoramento e a movimentação das ruas de comércio. Este esforço resultou em uma narrativa que dá conta da constituição de uma visualidade de modernidade. Nos primeiros anos do século XX, as vistas da cidade são feitas a partir do rio e dominadas pelo elemento natural. Seu trabalho também deixa evidente o processo desigual de incorporação dos novos padrões urbanos como na imagem que evidencia a presença do casario colonial e de uma figueira – árvore típica do sul do Brasil – em Belém Velho, um dos redutos de memória da colonização açoriana da cidade.
As evidências da urbanização incipiente na jovem capital também ficam claras na tomada do casario da rua Riachuelo. A imagem tornou-se muito conhecida e demonstra a pequena dimensão do núcleo urbano em relação ao rio e as vastas áreas de montanhas desocupadas.
É apenas na década de 20 que a cidade conquista referenciais de uma visualidade moderna. Neste momento, há uma inversão nas tomadas para vistas da cidade e a opção não é mais vê-la a partir do rio e sim a partir da nova praça do poder, onde está instalado um monumento ao positivismo e seu líder, Júlio de Castilhos.
Criado em 2003, o coletivo propõe novas leituras fotográficas por diferentes meios. Entre eles, destacam-se a curadoria da Semana Internacional de Fotografia FNAC (2008) e o conselho curatorial do Paraty em Foco (2009) e deste 2º Fórum Latino-Americano de Fotografia de São Paulo. Também participam de exposições nas quais apresentam ensaios conceituais. Mantém suas obras representadas pela Galeria Vermelho, de São Paulo. Fazem parte do conselho editorial da revista Sueño de la Razón e atuam também no mercado editorial e de publicidade.
Carioca, começou sua trajetória fotográfica em jornais como O Globo, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo. Também fotografou para revistas como Veja e Isto É, além das internacionais Newsweek e Time Magazine. Desde 1986 atua como documentarista, tendo especial atenção a temas como extrativismo e o movimento do trabalhador rural. Atualmente, é editor da revista eletrônica Mesa de Luz (www.mesadeluz.org) e diretor do Estúdio Brasil Imagem, em Porto Alegre, cidade onde mora. Vencedor dos prêmios brasileiros Leica-Agfa (2005) e Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos , é fundador e coordenador do Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre (Festfotopoa).
A terceira margem do tempo fotográfico…
Quando recebi o convite do Alexandre Belém para “ocupar” o território virtual do 2º Fórum Latino Americano de Fotografia de São Paulo, bateu um sentimento duplo. A alegria pela oportunidade aberta, e a certeza de que a responsabilidade aumentou. Atuar no Fórum faz parte desse novo momento que vive a fotografia brasileira, onde os festivais de fotografia espalhados país afora, se tornaram a plataforma onde todas as questões relacionadas com a fotografia encontram espaço de trocas e formação de redes.
Coordenar um festival de fotografia – no nosso caso o FestFotoPoA – é antes de tudo, buscar caminhos que permitam que as teias dessa rede se encontrem e formem novas camadas. Camadas com “jeito de layers”, como seja, no alfabeto contemporâneo. É com esse pensamento de novas camadas, que abro esse primeiro post do Fórum Virtual, trazendo aqui, as propostas que jogamos para o público na edição 2010 do FestFotoPoA.
a terceira margem do tempo fotográfico… o território da fotografia…
Com esse tema, o FestFotoPoA 2010 – Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre abriu suas mesas para uma reflexão que pretendeu debater as transformações promovidas pelas novas tecnologias no campo do fazer da fotografia e as mudanças causadas na geografia do território fotográfico. Paisagens que antes escapavam do senso comum e que hoje são trilhas abertas, embora conhecer o caminho não significa saber percorrê-lo. Sabemos que o tempo está na prática fotográfica desde o seu surgimento.
Além da necessária obediência ao cronômetro para obtenção dos melhores resultados no artesanato da imagem, na fotografia estabelece o manuseio de distintas temporalidades, e no contemporâneo amplia sua faixa de atuação e abre uma nova margem, atuando como elemento de uma nova sintaxe fotográfica. Ao pensar o tempo e não mais a geometria, como instrumento de sua criação, o artista do novo milênio se depara com ecos visuais que deixaram marcas em toda a história da representação catalogada pela humanidade.
Ao permitir que tempo e luz ocupem novos espaços de criação no território fotográfico, as novas tecnologias evidenciam o estado da arte na obra fotográfica e abrem uma terceira margem para novas experiências, que se estruturam mais pelo movimento do que pela geometria. No contemporâneo, a idéia de uma fotografia que congela o tempo é questionada pela proposta do tempo como experiência no presente. Ao exibir os trabalhos de Breno Rotatori, Cia de Foto e Denise Helfenstein, o FestFotoPoA 2010 partilhou com o público exemplos de uma nova margem criativa que tem em sua gênese a relação com o tempo repensada em possibilidades contemporâneas.
Na foto de família, a mais comum do alfabeto fotográfico, Breno Rotatori apresenta sutil e magistralmente toda a psiquê da história da fotografia, tudo envolto numa atmosfera tipicamente fotográfica: “a da alegria de ter seu retrato”. Em outro front mas na mesma direção, tirando partido do miss-san-cene do retrato, a Cia de Foto cria uma genial metáfora do tempo ao submeter o retratado a um ritual de alargamento do “tempo de espera do clic”, transformando o retratado no “avesso do avesso do fotograma” e contraditoriamente, fixando e “retratando” o movimento do retratado, movimento esse que em priscas eras da fotografia era evitado usando-se o artifício de cenários montados nos estúdios fotográficos para dar firmeza ao corpo e não resultar em uma “imagem tremida”. A provocação em relação a esse teatro do princípio fotográfico, possibilitada por novas tecnologias, nos joga para dentro do “tempo fotográfico” e nos deixa lá também aguardando algum clic que abra alguma porta.
Denise Helfenstein, nos proporciona o prazer de reviver sua experiência e nos aconchega em uma poltrona, com um fone de ouvido onde podemos ouvir o som ambiente do momento da captura de suas imagens através de pin-hole. Suas imagens desfilam diante de nossos olhos e com elas o tempo atravessa nossos ouvidos e nosso corações. Por alguns instantes, somos o próprio pin-hole. Esses três exemplos representam uma espécie de espinha dorsal da proposta visual do FestFotoPoA 2010. Mas teve muito mais e nos próximos posts vamos mostrar uma seleção de trabalhos que acreditamos vão em breve fazer parte de uma comunidade maior de fotografia contemporânea brasileira.
Por Carlos Carvalho.
retrato from breno rotatori on Vimeo.
longa exposição : hector babenco from ciadefoto on Vimeo.
Criado em 2003, o coletivo propõe novas leituras fotográficas por diferentes meios. Entre eles, destacam-se a curadoria da Semana Internacional de Fotografia FNAC (2008) e o conselho curatorial do Paraty em Foco (2009) e deste 2º Fórum Latino-Americano de Fotografia de São Paulo. Também participam de exposições nas quais apresentam ensaios conceituais. Mantém suas obras representadas pela Galeria Vermelho, de São Paulo. Fazem parte do conselho editorial da revista Sueño de la Razón e atuam também no mercado editorial e de publicidade.
Carioca, começou sua trajetória fotográfica em jornais como O Globo, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo. Também fotografou para revistas como Veja e Isto É, além das internacionais Newsweek e Time Magazine. Desde 1986 atua como documentarista, tendo especial atenção a temas como extrativismo e o movimento do trabalhador rural. Atualmente, é editor da revista eletrônica Mesa de Luz (www.mesadeluz.org) e diretor do Estúdio Brasil Imagem, em Porto Alegre, cidade onde mora. Vencedor dos prêmios brasileiros Leica-Agfa (2005) e Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos , é fundador e coordenador do Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre (Festfotopoa).





















RSS 2.0
Enviando ...

