A modernização do Brasil se deu entre o desejo de responder às necessidades locais e de alinhar suas paisagens com as novidades vistas ao redor do mundo. Esse processo foi não apenas testemunhado mas também operado por olhares estrangeiros, alguns deles em busca de uma distância ideal: nem perto demais a ponto de perder a consciência das transformações, nem longe demais a ponto de enxergá-las pela via do exótico.
A pesquisa de Daniela Alarcom, sob orientação de Boris Kossoy, se debruça sobre um desses olhares bem-sucedidos, o de Alice Brill, artista plástica e fotógrafa nascida na Alemanhã, com parte de sua formação artística realizada nos Estados Unidos, e que se estabeleceu no Brasil desde sua adolescência.
Enquanto contextualiza a produção fotográfica de Alice Brill, a pesquisa lembra de outros artistas que vivenciaram e pensaram a tranformação de suas próprias cidades: Charles Baudelaire, Eugène Atget, Joseph Roth, Berenice Abbott e Federico García Lorca. Também passa por outros personagens que, direta ou indiretamente, participaram desse projeto de modernização do Brasil: as influências do suiço Le Corbusier em nossa arquitetura, a presença definitiva do casal italiano Lina e Pietro Maria Bardi no cenário artístico nacional, ou os olhares atentos de pensadores europeus que trabalharam na Universidade de São Paulo, como do belga Claude Levi-Strauss e o francês Roger Bastide.
Prestes a completar seus 90 anos de idade, Alice pôde conhecer, experimentar e documentar as mudanças da cidade de São Paulo. Suas imagens adquirem muitas vezes a forma de crônicas visuais, e não deixam de mostrar as contradições que a idéia de progresso sempre carrega consigo.
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Diário Íntimo: A São Paulo de Alice Brill – A pesquisadora disponibilizou um capítulo de sua pesquisa, com uma apresentação feita especialmente para o Fórum.
Autor: Daniela Alarcon
Orientação: Boris Kossoy
Escola de Comunicações e Artes – Universidade de São Paulo – Trabalho de conclusão de curso, 2008.
Fragmento:
Na cidade que passa a se caracterizar pela foule, a multidão, Alice registra os amontoados de pessoas, mas busca também as faces anô nimas, as personagens envolvidas em suas atividades cotidianas: o ca fezinho tomado no bar, a conversa na esquina da vila operária, a saída da fábrica. (…) Para a antropologia urbana, o desafio do pesquisador reside em transformar aquilo que é familiar em algo efetivamente conhecido. Par te-se do pressuposto de que o familiar não é necessariamente conheci do, é simplesmente algo com que se tem uma relação de senso comum. A tarefa de conhecimento passa pela criação de um estranhamento, que derrube essa familiaridade para que então aflorem os sentidos verdadei ros da realidade. Se na esfera da alteridade radical o estranhamento era objetivo, na cidade, ele deve, na maioria das vezes, ser construído. Para isso – e no caso da fotografia, em particular – o olhar deve ser inquieto, romper os condicionamentos, desconhecer o que já viu tantas vezes.
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Até 30/12, algumas de suas pinturas podem ser vistas na exposição Percurso e Universo de Alice Brill, em cartaz no Espaço Cultural BM&FBovespa (hall de entrada da Bolsa de Valores). Pça. Antônio Prado, 48, centro, São Paulo (catálogo disponível em PDF)






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Como filha de Alice Brill, tive o privilegio de acompanhar a elaboração do trabalho de Daniela Alarcon, que merece publicação como livro.
Alice Brill completa 90 em dezembro. Quer dizer 2011 ainda é o ano de comemorar as 9 décadas da artista plástica que foi fotógrafa por uma década. Daniela conseguiu abordar o tema com grande delicadeza e precisão.
Quando fotógrafa, Alice Brill fez fotos para o MASP, para artistas plásticos, e emprestou o olhar de artista para as imagens que produziu.
Quando artista plástica, Alice usufruiu da experiencia como fotógrava, por exemplo em seus maravilhosos trabalhos em p/b, dos anos 1970. Mesmo nos mais abstratos, partia do real, do olhar, aguçado, com certeza, pelo tempo em que usou a camera fotográfica como intermediação entre ela e o mundo.
ADOREI AS DUAS FOTOS…ADORO PRETO E BRANCO…MUITO BOM MESMO