A cidade de Crato, no interior do interior do Ceará sediou, há três anos, um encontro que rompeu as fronteiras da chapada Araripe e ganhou o mundo. Nesta época, o fotógrafo inglês Martin Parr veio ao Brasil para participar de um Fórum de fotografia e conheceu o sociólogo alemão Titus Riedl, que vive há 15 na região do Cariri e possui uma vasta coleção de fotografias pintadas reunidas para uma tese de mestrado defendida há 12 anos.
Parr, mais que depressa, reconheceu a grandiosidade daquele arquivo e decidiu levar mundo afora a importância de recuperar a ameaçada arte dos chamados “bonequeiros” do Nordeste brasileiro. Deste feliz encontro nasceu uma exposição em cartaz (até 18 de setembro) na Yossi Milo Gallery de Nova York e o livro Retratos Pintados (Nazraeli Press, capa dura, 68 páginas e 61 fotos), lançado simultaneamente à mostra, que expõem 150 retratos originais.
Os bonequeiros são incansáveis representantes de um ofício em extinção e atuam, se me permitem a comparação grosseira, como o nosso “fazedor de milagres contemporâneo”, o Photoshop. Além de recuperar memórias perdidas e fotografias mal tratadas pelo tempo, estes artistas recriam o improvável dentro de uma mesma imagem. Se o cliente quer uma foto ao lado de “padinho Cícero”, o cliente tem! Se fizermos uma análise mais profunda do trabalho destes fotorretratistas, é possível os reconhecer como agentes do sonho brasileiro. Eles concretizam em imagens o deslumbre da ascensão social nordestina por meio de ternos, roupas caras e joias que os retratados talvez nunca tivessem acesso.
Segundo Riedl, estes artistas seguem as orientações dos clientes que querem ser algo diferente do que são, tornando plausível a possibilidade se reinventar por meio da fotopintura, ou trazer de volta a memória de entes queridos. “Na zona rural, as imagens fotográficas ainda são escassas e, como último recurso para manter viva a lembrança do morto, os familiares recorrem às vezes a um retrato apagado ou desgastado do falecido, que tem de ser concluído pelo bonequeiro”, conta.
Ainda de acordo com o sociólogo, existem certas “regras” estéticas comuns na realização da fotopintura, principalmente quando se trata de um cliente idoso: tirar todas as rugas do rosto; nunca pintar de branco os cabelos; evitar sombras, “ajeitar” roupas que pareçam exageradamente sensuais. As crianças devem se parecer com o Menino Jesus dos folhetos distribuídos nas missas; mulheres devem usar blusas monocromáticas ou estampas de flores e homens devem aparecer de terno e gravata.
O ofício dos bonequeiros e dos fotógrafos populares do Brasil ganhou versão em película feita pelas mãos do diretor de cinema Joe Pimentel, em 2007. Com co-direção de Tiago Santana e pesquisa do próprio Titus Riedl, “Câmera Viajante” retrata o universo e o ofício destes profissionais que atuam nas festas, feiras e romarias do interior nordestino. O documentário é simples, divertido e com declarações de amor à fotografia que há tempos não via igual!
Pois bem, quem está em Nova York vai poder ver de perto o incrível trabalho destes bonequeiros e, quem está longe, fica torcendo para que a exposição e o livro da dupla Parr e Titus venham logo para o Brasil!

Foto: Fotopintura de Martin Parr no livro

Foto: Arquivo Titus Riedl
O fotógrafo inglês é “um cronista de nosso tempo”, afirma o curador alemão Thomas Weski. Para ele, as imagens de Parr oferecem a oportunidade de ver o mundo sob uma perspectiva única no turbilhão de registros divulgados pela mídia. Temas como consumo, prazer e comunicação são elementos básicos de sua imagética, por meio da qual ele se posiciona inclusive politicamente. Nascido em Epsom, pequena cidade do condado de Surrey, aprendeu a fotografar na infância, com seu avô. Estudou fotografia na Manchester Polytechnic, hoje parte da Manchester Metropolitan University, uma das quatro maiores universidades da Inglaterra. É um colecionador compulsivo de livros de fotografia, os quais busca pelo mundo inteiro, e autor de importantes livros, como Bored Couples (1993) e Think of England (2000), ambos uma crítica contundente ao way of life.





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Queridos,
acho que vcs devem um post sobre o trabalho de Titus. Não foi prazeroso para mim ver essa pesquisa tão importante na história de nossa fotografia ganhar esse ar factual como descoberta de algum fotógrafo, ou indivíduo.
A notícia sobre o mérito de Parr é mais fraca que um post a respeito (e com respeito) a pesquisa de Titus.
O post é sobre o mérito de Parr, de Titus e dos fotopintores.
Uma cadeia que foi se descobrindo e hoje está num belo livro.
Valeu a dica!
Bom dia, fico feliz de saber que se pesquisa ainda está técnica de retrato. No momento estou fazendo Mestrado, e minha pesquisa se originou a partir deste retratos pintados, gostaria de saber mais a este respeito.
Ed Carlos Alves de Santana
quizambu@hotmail.com
Mestrando em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia 2010.2
Processos Cristivos
Adoro quando somos colocados de frente para notícias que resgatam um mundo por muito tempo esquecido, isso pode não ser novidade para alguns, mas para muitos a mensagem que existem personagens nesse brasil, e muitas vezes não brasileiros se interessando por uma história genuinamente nossa e de alguma forma resgatando e cuidando dessa memória tão rica é de extrema importância.
Obrigada ao Parr, ao Titus, aos fotopintores e toda turma do blog por nos proporcionar experiências tão ricas e de um poder tão grande de reflexão. Quero mais!
Andrea,
Teremos mais!
Ed, respondendo para o seu e-mail…
Obrigado.
Como posso conseguir esta Biblia Sagrada da fotopintura. Isto realmente é um milagre,alguém escreveu sobre a fotopintura. Preciso ter este livro.
Oi, Ed!
A Livraria Cultura diz que o livro está esgotado no fornecedor mas, semana passada comprei esta “Bíblia Sagrada” pelo Amazon (http://migre.me/17Eyy).
Vale a pena correr atrás, é realmente uma publicação super importante!
Obrigada!