Há muitas maneiras de abordar a história e de se aproximar de outros tempos. A mais confortável – mas também a mais problemática – é buscar uma narrativa capaz de encadear, contextualizar e explicar os episódios que desejamos conhecer. Vale reconhecer que nunca abordamos os fatos diretamente, apenas suas representações, fragmentos de memórias constituídos por ruínas, objetos, documentos, imagens e relatos. Por isso, é pretensioso querer construir uma narrativa livre de lacunas. Assumindo nossos limites na abordagem do passado, torna-se produtivo e prazeroso resgatar uma história não de fatos, mas de pensamentos, partindo do olhar que uma sociedade produziu sobre suas práticas, suas descobertas, suas dúvidas, enfim, sobre seu tempo.
Com essa perspectiva, comentaremos numa série de três posts, livros que permitem um contato com textos de épocas distintas sobre a fotografia e também sobre a arte e a imagem, num sentido mais amplo. Neste primeiro, abordamos a coletânea Fotografía, Antropología y Colonialismo (1845-2006) (Barcelona: Gustavo Gili, 2006), de Juan Naranjo.
Nos dois próximos, apresentaremos o livro “A estética fotográfica”, organizada por Joan Fontcuberta, e os três volumes de “Art in Theorie”, organizados por Charles Harrison, Paul Wood e Jason Gaiger.
Nesta coletânea, o historiador e curador independente espanhol Juan Naranjo reúne textos produzidos nos séculos XIX e XX, que discutem o uso da fotografia pelas ciências humanas. O projeto é particularmente interessante para nós porque traz reflexões sobre a fotografia no confronto com a identidade de um “outro”: criminosos, doentes, habitantes de lugares distantes, em alguns casos, das Américas.
Os textos estão organizados em três partes segundo recortes cronológicos, mas destacando os modelos possíveis e vigentes dessa abordagem antropológica em cada um dos momentos. Os nomes dos capítulos já compõem um bom exercício de síntese:
Em “Medir”, Naranjo destaca um momento marcado pelo deslumbramento diante da fotografia, mas também pelo anseio positivista de construir uma ciência humana tão rigorosa quanto eram as exatas. O resultado mais explícito disso foi a antropometria, ciência que buscava identificar comportamentos e “raças” através de medidas e aparências corporais, e que encontrou na fotografia uma ferramenta promissora. Aqui encontramos cientistas reconhecidos em suas épocas, alguns deles familiares a quem estuda a história da fotografia, como Francis Galton, Alphonse Bertillon e Albert Londe.
Em “Observar”, já encontramos a Antropologia como uma ciência em busca de uma metodologia própria, que agora coloca o pesquisador em contato efetivo com as comunidades que estuda. Isso se desdobra em um universo de experimentações com os instrumentos de observação em campo, a fotografia dentre eles. Neste capítulo, encontramos textos de nomes importantes que esboçaram os princípios daquilo que hoje chamamos de Antropologia Visual: Franz Boas, Bronislaw Malinowski, John Collier Jr., Margareth Mead, Gregory Bateson e Lévi-Strauss.
“Repensar” se concentra em um debate contemporâneo sobre as relações entre fotografia e antropologia, que inclui desde um olhar histórico e autocrítico dessa disciplina, até algumas questões a respeito das transformações por que passam as tecnologias da imagem. Aqui encontramos pesquisadores atuantes no campo da Antropologia Visual, mas também nomes ligados ao campo das artes, como Malek Alloula, Marta Gili e Victor Burgin, que ampliam o debate considerando o quanto a imagem ajuda a construir o ethos que pretende revelar.
A introdução feita por Juan Naranjo está disponível em PDF na internet.
Catalão de Barcelona, é um caso raro na fotografia internacional. Fotógrafo criativo, é também um pensador sem limites, que vem se destacando desde os anos 1970, quando se formou na Universidad Autónoma de Barcelona, onde foi professor na Facultad de Bellas Artes. Daí para a frente, percorreu escolas importantes, como a Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Fundador da revista Photovision, uma das mais marcantes na história contemporânea, é autor de vários livros, como El Beso de Judas (Ed. Gustavo Gili, Barcelona, 1997), no qual propõe que o mundo real foi substituído por um fictício, onde só existem aparências, e discute a chamada realidade da imagem fotográfica. Em Zonas de Penumbra (Actar, Madri, 2000), o fotógrafo discute a crítica fotográfica em meio à produção da arte contemporânea e percorre outras investigações. Pensamentos indo ao encontro de uma inquietação íntima e suas reverberações na imagética internacional.











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Ronaldo, estas leituras mostram um caminho interessante para pensar como a tradição de uma cultura visual vai se ‘instalando’.
Parabéns pelo blog do Fórum, vc, Alexandre, Georgia e Manu estão produzindo um contéúdo muito bom aqui. To voltando e começando ler tudo. Precisa folego! Abs.