Um fotógrafo na mira do tempo

Foto: Virgílio Calegari, "Mãe Rita"

No post anterior, introduzi aquilo que foi a matriz dos debates do FestFotoPoa 2010, o tempo na fotografia.

Além de exibir trabalhos de fotógrafos que trabalham em novas fronteiras e limites, o festival buscou na reflexão – e no pensamento de autores novos e consagrados – uma outra abordagem. O tempo também foi tema proposto pelo PhotoEspaña – no ano de 2009 – para um Encontro de críticos e pensadores que aconteceu no México. A fotógrafa e pesquisadora Claudia Linhares Sanz e a jornalista e pesquisadora Sinara Sandri (também coordenadora adjunta do FestFotoPoa) tiveram trabalhos selecionados para o Encontro e participaram ativamente da edição 2010 do FestFotoPoa.

Sinara, no pensamento e formatação do festival. Claudia Linhares participando da mesa “O tempo e o espaço no território da fotografia” e, ao lado de Rubens Fernandes Júnior e Pio Figueiroa, da Cia de Foto, proporcionou uma dos melhores debates do festival.

Reproduzo neste post, o trabalho de Sinara Sandri selecionado para o Encontros de críticos do PHE, sobre o fotógrafo italiano Virgílio Calegari, radicado no Rio Grande do Sul e que deixou uma obra documental sobre a cidade de Porto Alegre na virada do Século XIX para o Século XX. Em sua pesquisa, Sinara percebeu que além da idéia consolidada por pesquisadores de que Callegari havia fotografado a transformação urbana que tornou Porto Alegre uma cidade “moderna”, no sentido mais positivista de época, o fotógrafo italiano também se preocupou “autoralmente” em mostrar que a cidade, que surgia para a modernidade (que é diferente de surgir com a modernidade), deixava marcas de uma cidade que “tinha sido” e introduzia elementos que viriam ganhar forma apenas num futuro de “modernidade inexorável”.

O trabalho de Sinara Sandri mostra que Callegari foi um autor preocupado com a memória social da cidade. Mas paro por aqui. Deixo vocês com o original, que é infinitamente melhor que o meu texto. E que afinal foi a tese de mestrado de Sinara Sandri, que além de ter recebido 10 com louvor, teve como orientadora, Sandra Pesavento, historiadora cuja atuação foi quase uma militância no campo da História e do uso da imagem na pesquisa e sua importância no imaginário de um cidade.

PDF do artigo de Sinara, selecionado para o PhotoEspaña: UM FOTÓGRAFO NA MIRA DO TEMPO

Link para a monografia completa: http://hdl.handle.net/10183/11384

Por Carlos Carvalho.

Foto: Virgílio Calegari, “Mulher de Turbante Branco e Preto”

Por Sinara Sandri.

Virgílio Calegari (1868-1937) ficou conhecido como o retratista da elite urbana que se instalava em Porto Alegre, no início do século XX. Entretanto, entre o material sob guarda da Fototeca Sioma Breitman e disponível para pesquisa, as imagens de negros, pobres e trabalhadores chamam atenção por demonstrarem interesse e intimidade com temas exteriores aos salões letrados.

Nas imagens identificadas como “Mãe Rita” e “Mulher de Turbante Branco e Preto”, não há ostentação ou a imitação de padrões característicos de modelos brancos, nem a repetição do estereótipo africano, esperável nas fotografias do padrão “typo negro” ou mesmo das imagens dedicadas a retratar os costumes desta população.

Nas duas fotografias, a identidade negra das modelos é demonstrada de forma clara. Entretanto, o que chama atenção na imagem da mulher é a relação de cumplicidade, necessária para que a modelo se mostrasse de forma tão intensa frente às lentes do retratista. Em um cenário de recursos mínimos, onde não precisou disfarçar nem mascarar os traços do seu cotidiano, a mulher parece muito à vontade em um sorriso bastante familiar. Ao lançar um olhar muito íntimo, a mulher deixa entrever a pessoa que está atrás das lentes. Pode ser exagero enxergar, através deste retrato, o fotógrafo no papel de amigo, patrão ou velho conhecido. Entretanto, não seria demasiada ousadia ver aí a maestria do autor ao materializar, em imagem, a riqueza dos sentimentos humanos.

No retrato identificado como “Mãe Rita”, a mulher que seria a responsável pela introdução dos cultos africanos, em Porto Alegre, é apresentada com seus colares rituais em um olhar sério e enviesado. Não fosse por uma leve insinuação de sorriso, seria possível dizer que mostra uma quase desconfiança diante do fotógrafo. Apesar da relevância da sua tarefa, dificilmente gozaria de reconhecimento público uma vez que não fazia parte dos grupos econômica e socialmente favorecidos. Entretanto, sua importância e a função que ocupava não passaram despercebidas pelo fotógrafo.

É importante assinalar um provável interesse do autor por um personagem que representa circuitos e relações sociais que extrapolam o meio em que vivia a chamada elite dirigente da época. Longe da imagem do exótico, o retrato de Mãe Rita poderia ser tomado como exemplo da preocupação do autor com personagens, hábitos e modos de viver existentes na cidade.

Outra imagem que pode servir como exemplo deste olhar do autor é a fotografia conhecida como “Acendedores de lampião”, sem datação estimada pela instituição de guarda. São os trabalhadores responsáveis pelo acionamento dos lampiões de iluminação pública, atividade que já na virada do século XX estaria com os dias contados. Dessa forma, é possível concluir que, na iminência de uma mudança substancial na feição urbana e, em determinada medida, em uma atividade econômica da capital, o fotógrafo optou por retratar o elemento humano. Ao priorizar o trabalhador e não o sistema de iluminação, imortalizou uma profissão em vias de extinção e ofereceu a possibilidade de salvar do esquecimento algumas vítimas inevitáveis do progresso e da modernidade.

Foto: Virgílio Calegari, “Acendedores de lampião”

Calegari observou e fotografou sistematicamente a cidade, as obras de melhoramento e a movimentação das ruas de comércio. Este esforço resultou em uma narrativa que dá conta da constituição de uma visualidade de modernidade. Nos primeiros anos do século XX, as vistas da cidade são feitas a partir do rio e dominadas pelo elemento natural. Seu trabalho também deixa evidente o processo desigual de incorporação dos novos padrões urbanos como na imagem que evidencia a presença do casario colonial e de uma figueira – árvore típica do sul do Brasil – em Belém Velho, um dos redutos de memória da colonização açoriana da cidade.

As evidências da urbanização incipiente na jovem capital também ficam claras na tomada do casario da rua Riachuelo. A imagem tornou-se muito conhecida e demonstra a pequena dimensão do núcleo urbano em relação ao rio e as vastas áreas de montanhas desocupadas.

É apenas na década de 20 que a cidade conquista referenciais de uma visualidade moderna. Neste momento, há uma inversão nas tomadas para vistas da cidade e a opção não é mais vê-la a partir do rio e sim a partir da nova praça do poder, onde está instalado um monumento ao positivismo e seu líder, Júlio de Castilhos.

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