A terceira margem do tempo fotográfico…

Ensaio "manélud", Breno Rotatori

Quando recebi o convite do Alexandre Belém para “ocupar” o território virtual do 2º Fórum Latino Americano de Fotografia de São Paulo, bateu um sentimento duplo. A alegria pela oportunidade aberta, e a certeza de que a responsabilidade aumentou. Atuar no Fórum faz parte desse novo momento que vive a fotografia brasileira, onde os festivais de fotografia espalhados país afora, se tornaram a plataforma onde todas as questões relacionadas com a fotografia encontram espaço de trocas e formação de redes.

Coordenar um festival de fotografia – no nosso caso o FestFotoPoA – é antes de tudo, buscar caminhos que permitam que as teias dessa rede se encontrem e formem novas camadas. Camadas com “jeito de layers”, como seja, no alfabeto contemporâneo. É com esse pensamento de novas camadas, que abro esse primeiro post do Fórum Virtual, trazendo aqui, as propostas que jogamos para o público na edição 2010 do FestFotoPoA.

a terceira margem do tempo fotográfico… o território da fotografia…

Com esse tema, o FestFotoPoA 2010 – Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre abriu suas mesas para uma reflexão que pretendeu debater as transformações promovidas pelas novas tecnologias no campo do fazer da fotografia e as mudanças causadas na geografia do território fotográfico. Paisagens que antes escapavam do senso comum e que hoje são trilhas abertas, embora conhecer o caminho não significa saber percorrê-lo. Sabemos que o tempo está na prática fotográfica desde o seu surgimento.

Além da necessária obediência ao cronômetro para obtenção dos melhores resultados no artesanato da imagem, na fotografia estabelece o manuseio de distintas temporalidades, e no contemporâneo amplia sua faixa de atuação e abre uma nova margem, atuando como elemento de uma nova sintaxe fotográfica. Ao pensar o tempo e não mais a geometria, como instrumento de sua criação, o artista do novo milênio se depara com ecos visuais que deixaram marcas em toda a história da representação catalogada pela humanidade.

Ao permitir que tempo e luz ocupem novos espaços de criação no território fotográfico, as novas tecnologias evidenciam o estado da arte na obra fotográfica e abrem uma terceira margem para novas experiências, que se estruturam mais pelo movimento do que pela geometria. No contemporâneo, a idéia de uma fotografia que congela o tempo é questionada pela proposta do tempo como experiência no presente. Ao exibir os trabalhos de Breno Rotatori, Cia de Foto e Denise Helfenstein, o FestFotoPoA 2010 partilhou com o público exemplos de uma nova margem criativa que tem em sua gênese a relação com o tempo repensada em possibilidades contemporâneas.

Na foto de família, a mais comum do alfabeto fotográfico, Breno Rotatori apresenta sutil e magistralmente toda a psiquê da história da fotografia, tudo envolto numa atmosfera tipicamente fotográfica: “a da alegria de ter seu retrato”. Em outro front mas na mesma direção, tirando partido do miss-san-cene do retrato, a Cia de Foto cria uma genial metáfora do tempo ao submeter o retratado a um ritual de alargamento do “tempo de espera do clic”, transformando o retratado no “avesso do avesso do fotograma” e contraditoriamente, fixando e “retratando” o movimento do retratado, movimento esse que em priscas eras da fotografia era evitado usando-se o artifício de cenários montados nos estúdios fotográficos para dar firmeza ao corpo e não resultar em uma “imagem tremida”. A provocação em relação a esse teatro do princípio fotográfico, possibilitada por novas tecnologias, nos joga para dentro do “tempo fotográfico” e nos deixa lá também aguardando algum clic que abra alguma porta.

Denise Helfenstein, nos proporciona o prazer de reviver sua experiência e nos aconchega em uma poltrona, com um fone de ouvido onde podemos ouvir o som ambiente do momento da captura de suas imagens através de pin-hole. Suas imagens desfilam diante de nossos olhos e com elas o tempo atravessa nossos ouvidos e nosso corações. Por alguns instantes, somos o próprio pin-hole. Esses três exemplos representam uma espécie de espinha dorsal da proposta visual do FestFotoPoA 2010. Mas teve muito mais e nos próximos posts vamos mostrar uma seleção de trabalhos que acreditamos vão em breve fazer parte de uma comunidade maior de fotografia contemporânea brasileira.

Por Carlos Carvalho.

retrato from breno rotatori on Vimeo.

longa exposição : hector babenco from ciadefoto on Vimeo.

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