Exposições e ocupações do Paraty em Foco 2010

Exposição Paraty em Foco 2009. Foto: Júlia Moraes

Exposição Paraty em Foco 2009. Foto: Júlia Moraes

Setembro é mês de Paraty em Foco (de 15 a 19) e todo mundo que se interessa por fotografia já tem essa data marcada na agenda. Mas existe uma outra data importante para aqueles que, além de ver, querem ser vistos durante o festival. São as convocatórias para exposição e ocupações temporárias de galerias e espaços urbanos da cidade de Paraty/RJ.

Pois bem, até o dia 15 de agosto estão abertas as inscrições para propostas bacanas e criativas. Além dos espaços expositivos O Cubo, IPHAN e Traço Atelier, os interessados têm os tapumes das ruas para expor projetos de qualquer vertente artística, desde que tenham a fotografia como base e sejam relacionados com o tema “Inventários da Terra”.

O envio de projetos deve ser feito diretamente pelo site do Paraty em Foco e é super simples. A comissão de avaliação é formada por Claudia Jaguaribe, Isabel Amado, Eduardo Muylaert, Juan Esteves e Rubens Fernandes Júnior. Os trabalhos selecionados serão divulgados no dia 21 de agosto e você encontra o edital completo aqui.

Ah! Pegando o bonde de Paraty? Estão abertas também as inscrições para uma série de workshops bacanas que rola por lá.

Tapumes que podem ser utilizados como galerias a céu aberto. Foto: Divulgação

Um mergulho no abismo

Benditos, Tiago Santana, anos 90

Vez ou outra, as pesquisas acadêmicas permitem que suas metodologias se contaminem com algum elemento poético. São as mais prazerosas de ler. Anuschka Reichmann faz neste trabalho um exercício dessa ordem: desloca conceitos e constrói metáforas que permitem pensar tanto a fotografia quanto a cultura latino-americana. Ela parte da noção de abismo, originalmente ligada à Heráldica (estudo de brasões), e já aplicada por alguns autores à análise de obras do cinema, da pintura e da literatura. A “perspectiva em abismo” se refere à repetição ou desdobramento de elementos dentro da imagem, criando um percurso complexo de leitura. Com esse conceito, a pesquisa tenta entender o comportamento próprio que o olhar tem diante de certas fotografias que trazem imagens dentro de imagens, colocando em diálogo dimensões espaciais e temporais distintas.

Anuschka Reichmann desenvolve uma metodologia própria para analisar a presença desse fenômeno no trabalho de quatro fotógrafos: Sergio Larrain (Chile), Alicia d’Amico (Argentina), Tiago Santana (Brasil) e Graciela Iturbide (México). A escolha dos autores não se dá por acaso: ela enxerga uma analogia entre essas imagens e um componente de nossa cultura, uma “América Latina no abismo” que também se desdobra em dimensões complexas.

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Um mergulho no abismo: estratégias comunicacionais da imagem fotográfica

Autor: Anuschka Reichmann Lemos

Orientadora: Kati Eliana Caetano

Mestrado em Comunicação e Linguagens – Universidade Tuiuti do Paraná – Paraná, Brasil – 2006

Fragmento:

“A perspectiva em abismo não é uma estrutura presente somente em imagens latino-americanas(…). Também, entre as imagens latino-americanas, não é uma estrutura que seja utilizada de forma geral. Porém, certamente é uma estrutura visual que pode simbolizar questões culturais. O fato de ter uma imagem dentro da outra, e de as relações entre esses quadros serem mais importantes que os enquadramentos isoladamente, já demonstra um processo pouco objetivo e ambíguo do abismo. Questões entre colonizado e colonizador, vida e morte, natureza e cultura, presença e ausência, objetividade e subjetividade, imagem e realidade, identidade e alteridade, etc. permeiam essas relações”.

Monografia em PDF: http://tede.utp.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=132

Au Bal-Musette, Brassaï, 1932

Serafina, Graciela Iturbide, 1985

Valparaíso, Sergio Larrain, 1963

Alicia d´Amico, 1968

Nano Festival

Foto: Ug3nia

Foto: Jimena Almarza

Foto: Sol.S

Uma maneira bem inusitada de dar a luz a um festival de fotografia na Argentina tem rolado na net e chamado a atenção de muita gente.

O Nano, como definem seus próprios criadores, é “chiquito y digital, bastante inteligente para ser un manojo de pixeles. Curioso y movedizo, no para de hacer preguntas. Quiere aprender rápido. Nano no quiere ser fotógrafo. Ya “es” fotógrafo. Por eso mismo sabe ,desde antes de nacer, que la fotografía no es todo. Y que lo más importante “está por verse”.

Para começar a fazer amigos, o Nano fez um grupo no Flickr e convidou as pessoas a se apresentarem por meio de autorretratos. Esta é uma das primeiras convocatórias das muitas que vão rolar e se transformar em exposições do festival.

Os pais do recém nascido Nano são Lucía Merle, Flor Abd, Fernando de la Orden, Mateo Heras, Ignacio Coló, Manuel Fernandez y Daniel Merle.

Fundación PH 15

Foto: Juan Manuel Villagra

Fundación PH15, na Argentina, completa 10 anos em 2010 e tem um bocado de motivos para comemorar. Dirigida por Moira Rubio Brennan, desenvolve com crianças de baixa renda atividades que prezam pela educação através da arte e sua utilização como ferramenta de inclusão social.

Por meio das oficinas de fotografia, a instituição oferece aos alunos a possibilidade de explorar o meio onde vivem e construir sua própria visão da cidade, contribuindo para um espaço de formação de identidade e melhorias sócio-culturais. Além disso (que não é pouco!), as crianças fazem saídas fotográficas constantes se deslocando dos bairros onde vivem para espaços urbanos que normalmente não têm acesso.

Para ajudar a manter esta iniciativa bacana de pé, entre no site e escolha sua forma de doação. É possível adquirir obras fotográficas dos alunos, fazer contribuições em dinheiro e doar material fotográfico, como aquela sua câmera velha que pode revelar um novo sentido à vida dessas crianças.

Ah! E, por falar nisso, me lembrei de um documentário super bonito da Kids with Cameras, outra instituição como a PH15 que começou sua história na periferia de Calcutá/India. Aqui, um traller do premiado filme:

Pedro David

O sertão enquanto temática artística-poética é contumaz em várias linguagens. Lugar de inspiração para vários e grandes fotógrafos, a magia do lugar também faz com que se desvele não um, mas vários contextos imaginados. Nesse ponto, o olhar pode nos indicar uma simbiose entre a realidade e a ficção.

Abandonar o instante e se apropriar da paisagem na tentativa de abstrair os clichês – que tal tema muitas vezes provoca –, trata-se do esforço em rever o conceito e convertê-lo em proposta de suspender o lugar. De modo que se possa conduzir os “sertões” em sua aura de símbolos e narrativas mais largas e criativas. O filósofo francês François Soulages reflete que “o artista não está aqui para dar respostas”. E nos conduz a uma das essências da imagem, quando afirma que interpretar é uma maneira de trabalhar a potencialidade de ficção.

De tal maneira, pensemos ainda em ensaios fotográficos que geram – pelo senso da pesquisa – não só as consequências da imagem em si, mas contudo suas instâncias de apreensão da subjetividade do lugar. O percurso de busca e imbricação do retórica sobre o sertão e sua dimensão da percepção metafórica entre natureza e homem pode e deve ser retrabalhado com ênfase na pesquisa, no aprofundamento da imagem não pela lente mas, muito mais, pela formulação da aproximação sensória com esse território.

No trabalho Homem Pedra, do fotógrafo mineiro Pedro David, a investigação caminha pela cartografia de um lugar repleto de cenas preexistentes em nosso imaginário seja afetivo, literário, social, cultural, estético… As imagens de Pedro David perambulam de mãos dadas com referência a obra Grandes Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. De certo, inevitável, não remetermos a ela.

Além dos retratos, a paisagem de morfologia inquietante, rechaça a precisão do estigma da pobreza, fome e miséria tão frequente à imagem do sertão. Suplanta-se tais condições para construir certa poética voltada para a relação estóica entre o homem e este lugar – duro de se manter a sobrevivência.

A luz, o rastro de poeira, a arquitetura, a vegetação e as pessoas passam a encantar pelas fotografias de Pedro David. No entanto, esse encantamento não se formula apenas pela beleza ou raridade da cena, mas também pelo mistério vindos do silêncio e do paradoxo do que podemos vir a imaginar. O devir neste ensaio pode afugentar olhares incautos, a percepção precisa se nortear através de passos falsos… Pelos quais, convenhamos, as imagens inferem mais.

Homem Pedra: espécie de ato litúrgico do estar num espaço muito mais pela imaginação do que pela certeza das pedras.

Mondaphoto Magazine

Foto: Daniel Patiño

Foto: Juan Valbuena

Combinação boa de histórias interessantes e fotografia de qualidade é a revista digital Mondaphoto, do México. O conselho editorial é formado por Carlos Aranda, Alfredo Plecastre, Lizeth Arauz, Jerónimo Arteaga-Silva e Hernesto Ramírez, todos fotógrafos associados do coletivo Mondaphoto.

A publicação traz normalmente um tema central sob o qual os colaboradores desenvolvem reportagens e entrevistas, além uma sessão de notícias, banco de imagens e colunista convidado.

Em sua quinta edição, cujo tema é “El viaje”, a revista se define como um espaço de difusão da fotografia iberoamericana que busca estreitar os laços entre pessoas interessadas em imagem. Alguns dos vários colaboradores deste último numero são Juan Valbuena, Irvin Dominguez, Raúl Ortega, Daniel Patiño e Laura González.

Formando em 2006, o Mondaphoto é um dos coletivos que participou do I Encontro de Coletivos Fotográficos Ibero-americanos aqui em São Paulo, em 2008.

Centro Abierto 2010 em Lima

"Orden Público", Parque de la Democracia, 2009. Foto: Divulgação

"La foto salió movida", Fachada del Teatro Colón, 2009. Foto: Divulgação

Confesso que tenho uma certa “queda” por todo e qualquer tipo de intervenção artística que se propõe a romper as arestas de uma galeria de arte e cair nas graças do povo e ruas das cidades. Sorte a minha e de quem mais gostar, esse tipo de iniciativa tem ganhado cada vez mais fomento pelas bandas latino-americanas.

O Centro Abierto, no Peru, é um projeto que aposta nas ruas do centro histórico de Lima como cenário perfeito para articulação de intervenções artísticas contemporâneas.

Em uma ação conjunta da Alta Tecnología Andina (ATA), Fundación Telefónica e Museo de Arte de Lima (MALI), estão abertas as convocatórias para projetos inéditos, individuais ou coletivos, de desenho, pintura, fotografia, escultura, arte digital e afins.

As inscrições estão abertas para artistas de toda a America Latina e podem ser feitas pelo site até o dia 06 de agosto. Os projetos selecionados serão expostos durante a Gran Semana de Lima (outubro), evento que reúne milhares de pessoas nas ruas para celebrar a diversidade artística e cultural. Mais detalhes sobre como participar aqui.

Molaa

Foto: Divulgação

O Molaa foi fundado em 1966, em Long Beach, Califórnia/LA. Ele é o único museu dos Estados Unidos exclusivamente dedicado à produção artística latino-americana contemporânea e vem crescendo tanto  a ponto de ter que passar por constantes reformas em sua estrutura física.

O acervo permanente do museu dispõe de mais de 900 trabalhos que incluem esculturas, pinturas, vídeos e fotografias de 350 artistas da América Latina. Além desta imensa coleção, o museu também promove exposições temporárias, visitas guiadas e o Summer Art Camp. Neste programa, crianças de 6 a 12 anos participam de atividades artísticas durante as quais aprendem a se comunicar também em espanhol.

Se não está pelas bandas californianas mas quer conhecer um pouco mais deste museu, entre no site e navegue à vontade, tem informação pra dar e vender.

Foto: Summer Art Camp, no Molaa. Divulgação
Foto: Divulgação

Revoluções

A coletânea de artigos Revoluções (São Paulo: Boitempo, 2009), organizada por Michael Löwy, parte de um vasto conjunto de fotografias para pensar a história de algumas das mais importantes as convulsões políticas do Século XX. Essa obra nos interessa por vários motivos: pelas centenas de imagens que reúne, também pelo método que permite à imagem ter seu próprio espaço numa pesquisa histórica, e pelas revoluções que aborda, dentre elas, a Guerra Civil Espanhola, a Revolução Cubana, a Revolução Zapatista no México. E Löwy encerra a edição brasileira do livro com uma questão: “Revoluções brasileiras?”, recusando as falsas revoluções, como o golpe militar, e preferindo as verdadeiras intenções revolucionárias, como Canudos.

Michael Löwy é um dos mais importantes intelectuais marxistas brasileiros da atualidade. Formado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, vive em Paris desde 1969, onde hoje é diretor do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). Até este livro, sua relação com a fotografia não era tão evidente.

Revoluções, Brasil, Prisioneiros sobreviventes de Canudos

Camponeses ajudam Fidel Castro a cruzar as montanhas, 1959

Um ou outro pesquisador da fotografia interessado em Benjamin pode ter se deparado com um de seus livros “Walter Benjamin: aviso de incêndio” (São Paulo: Boitempo, 2005), que discute com muita clareza um dos textos mais enigmáticos do pensador alemão: suas teses “Sobre o conceito de história”.

Em Revoluções, vê-se claramente o propósito de fazer da imagem mais que uma ilustração: a narrativa verbal e a narrativa fotográfica tem, cada uma delas, seu devido espaço e seu devido papel.

“É claro que as fotografias não podem não podem substituir a historiografia, mas elas captam o que nenhum texto escrito pode transmitir: certos rostos, certos gestos, certas situações, certos movimentos. A fotografia permite que se veja, de modo concreto, o que constitui o espírito único e singular de cada revolução. Alguns críticos negam o valor cognitivo das fotografias de acontecimentos (p.13).

Löwy sabe que o material que reúne, antes de servir à pesquisa, participa da própria história. E, ainda numa perspectiva benjaminiana, convida a observar essas lutas interrompidas ou vencidas como o retrato de uma utopia que pode, também, agir sobre o nosso futuro.

“À medida que se avança no tempo, a fotografia torna-se não apenas um espelho – necessariamente deformador – dos eventos revolucionários, mas também um ator histórico, um instrumento de combate. Cada campo, nos enfrentamentos ou nas guerras civis, utiliza a fotografia como meio de propaganda, símbolo de união, sinal de reconhecimento. E, é claro, as fotografias das revoluções anteriores inspiram cada nova revolução” (p. 17-8).

Fidel Castro ensinando a utilizar uma arma, 1959
Coluna Garcia Oliver em Barcelona, 1936
México, Francisco Madero aclamado pelos Zapatistas, 1912
México, Pancho Villa e seus tenentes, 1915

La trastienda del curador

Foto: Divulgação

O Programa de Formação e Prática Curatorial do Centro Cultural Recoleta, em Buenos Aires (Argentina) começa sua terceira edição dia 03 de agosto. O objetivo do seminário é buscar uma reflexão sobre as diversas disciplinas presentes na concepção de uma exposição artística, assim como os processos pelos quais passa um curador em suas escolhas.

Os encontros acontecem durante os meses de agosto e setembro e contam com a participação de diversos nomes como Ana María Battistozzi, Máximo Jacoby, Adriana Lauria, Inés Katzenstein, entre outros curadores, teóricos e críticos. Uma ótima pedida para entender um pouco mais sobre este importante membro do corpo de qualquer trabalho artístico.

Onde: CEDIP, Centro Cultural Recoleta – Buenos Aires/AR

Quando: todas as terças de agosto e setembro, das 18h30 as 20h30

Inscrições e informações: Oficina de cursos y talleres, Centro Cultural Recoleta, Junín 1930/1º piso ou pelos e-mails: educacion@centroculturalrecoleta.org e asociacioncriticos@gmail.com