ENTREVISTA

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Assim termina o Fórum Latino-americano de Fotografia

Foto: Walter Costa

Foto: Walter Costa

Depois de 5 dias de muito pensar, discutir, debater e discordar, o Fórum chega à sua mesa final. Chega o momento de resumir o que foi o Fórum e pensar nas propostas para o continente daqui em diante. Na última mesa do Fórum, sobem ao palco Iatã Cannabrava, coordenador do Fórum, o britânico Michael Mack da Mac Books, Pedro Meyer, do Centro de la Imagen no México e Frank Kalero, diretor artístico da Bienal Photoquai em Paris. Iatã começa a mesa lembrando uma frase do texto de Mariana Lacerda no catálogo da exposição Fotonovela: Sociedade/Classes/Fotografia: “ver a vida através de vidros”. Também agradece à Erica, que durante todas as mesas de debates fez a interpretação em libras para deficientes auditivos. Para Iatã, ela pode ter se comunicado com ninguém ou com todo mundo, em uma “homenagem aos novos modos de representar”.

Para Iatã, uma frase dita pelo fotógrafo modernista Marcel Giró poderia ser uma das possibilidades de definição de futuro que esta mesa poderia pensar: “Feche os olhos na escuridão. Tire a linha do horizonte do centro de fotografias. Prenda a respiração em altas ou baixas velocidades”. Giró, ao falar de questões técnicas, resumiu, para Iatã, o futuro da fotografia.

Pedro Meyer toma a palavra e pergunta se o público espera que se leia o horóscopo da fotografia. Para Meyer, a pergunta essencial hoje é “quem é o fotógrafo?” Se pensarmos que todos o somos, a menos que se viva em uma caverna, a pergunta então seria: “fazer fotografias nos torna fotógrafos?” Independentemente da resposta, o fato é que todos fazem fotos em qualquer parte do planeta hoje em dia.

Foto: Walter Costa

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“Quais seriam os requisitos para se fazer uma fotografia?”, pergunta Meyer. “É igual música. Não precisa ser músico para escutar uma canção. Escutar música é igual ver fotografias, mas fazer música é mais complicado do que fazer fotos.”

Para Pedro Meyer a era digital foi para a fotografia o que a invenção da imprensa foi para a educação. Os analfabetos do futuro não são os que não sabem ler, e sim os que não sabem ler imagens. “Dizer que nem todos sabem fotografar é elitista. Todos somos fotógrafos, do amador ao profissional. A democratização do acesso já aconteceu, da difusão inclusive.”

Pedro Meyer segue e questiona se de fato não existe nenhum valor nas imagens que uma garota de 12 anos posta no Facebook sobre sua vida pessoal. Para Meyer, as críticas sobre narcisismo de Horacio Fernandez na mesa O Eu no Espelho ou a Representação de Si Mesmo, fazem sentido, porém não podemos ignorar o fenômeno do Facebook. “Também é narrativa, são histórias pessoais colocadas na rede”, afirma Meyer.

Se não podemos adivinhar o que vai ser da fotografia daqui há 5 anos, como podem as escolas programarem seus currículos pensando em 5 anos? Pedro Meyer acredita que a educação não vem acompanhando as mudanças do nosso tempo.

Meyer finaliza sua fala comentando que não existe uma representação da dimensão atual da fotografia, e que são necessárias mudanças profundas na educação. “Antes a gente assistia a aula e fazia a tarefa em casa. Agora, você assiste a aula em casa e tira dúvidas na escola.”

Foto: Walter Costa

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Frank Kalero segue com a mesa e, aproveitando a fala de Pedro Meyer, completa que aquelas fotos que mostrávamos aos parentes no Natal foram substituídas por nossas histórias pessoais diárias postadas no Facebook. “Expomos publicamente coisas que há alguns anos atrás jamais pensaríamos em mostrar. Perdemos o sentido de ridículo. Mas o rídiculo entorpece, é bom.”

Frank segue dizendo que não se pode confundir a democratização do uso da fotografia com a democratização do talento. Para ele, as ferramentas são parte da linguagem, mas não garantem nada. “Hoje a linguagem universal é a foto ‘medíocre’, desconfiamos do excessivamente perfeito”, conta.

Para o catalão a fotografia transformou-se em uma experiência “através de vidros”, como já havia mencionado Iatã no começo da mesa. “Para que assistir um show através de uma câmera? É um troféu. Uma muleta visual que ajuda a reafirmar que estivemos ali”. Frank segue explicando como essas muletas visuais fazem a memória visual descansar, e exemplifica: “Antes sabíamos de cor o telefone dos amigos. Hoje ninguém faz isso, não é mais necessário. A mesma coisa acontece com a imagem. Retratar o dia-a-dia nos ajuda a nos relacionar com um entorno que ainda não assimilamos”. E segue: “Estamos esquecendo de experimentar e nos entorpecendo com a experiência vivida através da imagem.”

Frank diz que as novas gerações estão obcecadas pelos “likes”. São muito conscientes de como querem ser representadas e entendem perfeitamente os códigos visuais. O que nossa geração aprendeu na escola as novas nascem sabendo. Para ele, é a geração do armazenar/compartilhar/consumir informação.

Frank finaliza dizendo que hoje se dá muita importância às ferramentas e se esquece para que servem. Mostra alguns exemplos de plataformas mais conectadas com a contemporaneidade, como a revista Vice, um exemplo clássico de como a nova geração se representa. O mesmo grupo que é retratado também tem sua voz. Outro exemplo mencionado foi a revista Punctum Asia, que usa a fotografia como meio e não como finalidade, uma revista feita por gente local, que fala sobre locais, para gente local. Frank aproveitou para mencionar que a edição Américas da revista Punctum será lançada em breve, com a colaboração do Estudio Madalena. Frank também mencionou o festival internacional de fotografia GetxoPhoto, que teve que sair às ruas para atrair o público.

Foto: Walter Costa

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Na vez de Michael Mack, o público foi convidado a interagir: ao invés de dar suas explanações sobre o futuro, Mack sentou-se no centro do palco e perguntou à plateia sua visão sobre o tema. A conversa toma rumos variados e no fim cai mais uma vez em um assunto bastante polêmico: a tal identidade latino-americana. O curador do Fórum Claudi Carreras expõe que este é o momento de pensar o conceito de latino-americano, e é para isso que existe o Fórum. “Estamos mostrando uma América latina de fronteiras abertas. Sinto que existe um certo complexo de assumir desde que lugar se produz a fotografia”. Sara Hermann, da plateia, completa: “Existe um pânico na teoria do pensamento de falar a partir das especificidades”.

Foto: Walter Costa

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Jorge Villacorta também contribui para o debate, expondo sua dificuldade em entender a aposta tão radical da exposição Fotonovela pela contemporaneidade. Para ele, era necessário incluir pequenos apoios históricos para situar a produção. “Ao mesmo tempo em que é saudável empapar-se do contemporâneo, a exposição oculta o lado do processo na fotografia latino-americana. Observar o México de 1978 por exemplo seria essencial para entender as imagens mexicanas dessa exposição. Se perde o sentido histórico.”

Foto: Walter Costa

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A discussão se volta para o assunto da mesa da noite anterior, onde Horacio Fernandez critica principalmente os trabalhos de autorretrato da exposição. Mais uma vez a discussão se volta para a tal latinidade, e Iatã comenta que essa é a primeira exposição do Fórum que gera um nível de debate tão alto, e que isso demonstra a madurez do processo de criação desta terceira edição. Depois de 2 edições do Fórum questionando o outro, o entorno, a terceira edição se volta ao questionamento de si própria.

Foto: Walter Costa

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E assim termina a última mesa desse intenso Fórum. Certos de que esta edição levantou mais uma vez questões importantes e muitas vezes até mesmo desconfortáveis, todos saem do Itaú Cultural, onde praticamos moramos durante esses 5 dias, com muitos questionamentos na cabeça e certamente com muita vontade de seguir investigando essa tal latinidade. Até 2016!

Foto: Walter Costa

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